

03
de outubro de 2009
mais
do moa... pra você

1.
Como surgiu o Moa "escritor"?
MOA
SIPRIANO: Foi
um processo muito natural. Sempre escrevi.
Na adolescência, por exemplo, era
fácil você me pegar pelos
cantos rascunhando alguma coisa nos cadernos
escolares. Amostras de poesias, de letras
de músicas inacabadas e de rabiscos
que no futuro seriam os primeiros ensaios
para contos sérios povoavam um quaquilhão de
folhas hoje perdidas no tempo.
Na minha juventude,
trabalhei muito tempo com fotografia e produção
em vídeo. Essa vivência profissional
praticamente moldou o meu estilo literário:
histórias "rápidas" e
extremamente visuais. Mas só fui
levar a sério a arte de escrever quando
vivi na pele uma experiência pessoal que
marcou profundamente minha vida. Para driblar
toda a carga negativa deixada pelo fim de um
relacionamento, consegui usar como válvula
de escape o dom que eu nem sabia que possuía
(risos).
Minha primeira fonte
de inspiração foi minha irmã -
que é poetisa -, e ao ler suas frases
poéticas pude sentir que eu também
tinha condições de escrever e de
romancear aquilo que era marcante em mim: a vivência
plena da minha homossexualidade.

2.
Quando você se descobriu homossexual?
MOA
SIPRIANO: Eu tinha 13 anos
quando senti que era "diferente" dos
outros garotos. Aos 14, de uma maneira muito
natural, percebi que eu não sentia
a mínima atração física
por meninas e que meu coração
e minha libido batiam mais fortes por alguns
tipos físicos de homens.
Minha grande sorte foi de jamais
ter tido qualquer problema em aceitar aquilo
que eu sentia e que fazia parte do meu ser. Essa
postura pessoal foi fundamental para que eu me
tornasse um homem pleno, sem qualquer sequela
de traumas ou medos ou preconceitos interiores
que pudessem afetar meu lado emocional, espiritual
ou afetivo.

3.
Como era sua infância?
MOA
SIPRIANO: Tive
uma infância comum e corrente. Nada
de especial. Eu fui um garoto humilde,
filho de pais separados, onde minha mãe
- uma grande guerreira - fez de tudo para
cuidar, sustentar e amar seus três
filhos (sou o mais velho, único
filho homem).
O que me diferenciava
das outras crianças é que sempre
fui muito curioso sobre todos os mistérios
da vida e do cotidiano. Observador,
reparava em cada detalhe do comportamento humano.
Além disso, viver
cercado de livros e letras (única herança
boa do meu pai, um grande intelectual)
era um paraíso pra mim.
Aprendi a ler
muito cedo e sempre me dediquei com afinco
ao prazer da leitura,
seja de um clássico ou de uma simples
receita de bolo recortada de um saco de açúcar.

4.
Quais foram e são os obstáculos
vividos por você ser homossexual?
MOA
SIPRIANO: Sou
um homem de sorte. Nunca permiti barrar
aquilo que sou perante qualquer tipo de
obstáculo ou preconceito. Como nunca
tive problemas em aceitar com naturalidade
o que sinto na intimidade, sempre
foi fácil para mim me "safar" da
ignorância alheia. Acho que aqui
está o grande
trunfo em ser um gay assumido (não confundir "ser
assumido" com "ser afetado") com
a cabeça no lugar.

5.
Quais são os perigos?
MOA
SIPRIANO: Quando
se vive uma vida de respeito a você e
ao próximo, não há perigo
algum em viver em plenitude o que você é.
Tudo que é "novo" e "diferente" assusta
um pouco as pessoas, pelo simples fato
delas não saberem - na maioria esmagadora
das vezes - como se comportar diante daquilo
que não faz parte do seu cotidiano,
da sua vida.
Quando as pessoas
do seu convívio
aprendem a dar valor pelo que você carrega
em caráter, em sinceridade, em honestidade,
pouco importa o que você é ou faz
na cama com alguém do mesmo sexo. Respeito
e diálogo franco são as melhores
armas contra qualquer tipo de preconceito.

6.
Sempre escreveu sobre homossexualismo?
MOA
SIPRIANO: Sim,
sempre. Escrever com exclusividade sobre
os meandros da homossexualidade masculina
foi o meu grande achado. Tenho muito orgulho
em ser um gay bem resolvido a publicar
arte literária de qualidade para
um público extremamente carente
de boa informação e entretenimento
de nível superior.

7.
Seus contos são fictícios ou
experiências vividas?
MOA
SIPRIANO: Há sempre
algo do autor em sua obra. É impossível
dissociar isso. A grande maioria dos meus
contos e romances é ficcional, onde
apenas uso da pesquisa e me baseio em experiências
vividas por pessoas ao meu redor para poder
compor meus enredos e personagens.
Por enquanto
há poucos contos
bem autobiográficos (eu sempre deixo isso
bem claro nas sinopses) ou baseados em situações
vividas por mim mesmo.
Quando aos
artigos, esses são
100% MOA (risos). Todo artigo que escrevo é reflexo
daquilo que vivo e conheço em profundidade.
Nada do que escrevo é baseado
em teorias ou situações hipócritas.
Tudo é baseado em fatos. Tudo vem daquilo
que eu, você e muita gente vivemos um dia.

8.
Onde você mora?
MOA
SIPRIANO: Atualmente, moro
em Ilha Comprida, litoral sul de SP.

9.
Lugares que frequenta?
MOA
SIPRIANO: Nos últimos
três anos tenho frequentando poucos
ambientes "sociais" (risos).
Vivo em uma ilha paradisíaca e meu
contato com a natureza, o mar, a imensidão
das praias tem me servido de refúgio,
contemplação e inspiração
necessários para o bom andamento
do meu trabalho. Lendo meus contos e romances
você perceberá que muitos
dos meus enredos se passam em "Lovland",
o nome fictício de uma ilha fictícia
inspirada no local onde vivo atualmente.

10.
Já veio a Curitiba?
MOA
SIPRIANO: Sim, muitas vezes.
Conheço a cidade, apesar de infelizmente
não frequentá-la com tanta
assiduidade como eu gostaria. Adoro Curitiba
e sua fantástica organização,
além do deslumbrante universo cultural
que encontramos em cada esquina, a qualquer
hora da noite ou do dia. Curitiba é um "país" mágico!

11.
O que achou da população?
MOA
SIPRIANO: Há uma
resposta dupla (risos). Quando você chega à cidade,
a primeira impressão que as pessoas
passam é de uma frieza, uma dureza
de espírito que nos causa até certo
desconforto. Mas basta começar um
bom papo, basta "pegar confiança" e
você ganha amigos eternos, fiéis
e por demais presentes. Só mesmo
convivendo de peito aberto é que
você sente o quão calorosa,
prestativa e amável é a população
curitibana.

12.
Visitou algum bar gay?
MOA
SIPRIANO: Não sou
uma pessoa que procura guetos ou ambientes
segregados para frequentar. Não me
importo se o bar possui público gay
ou hétero. Gosto de ambientes que
me façam bem, onde há a possibilidade
de conhecer gente interessante, inteligente,
e de se fazer amigos e aproveitar o momento
para uma boa bebida e um bom papo.

13.
Cite personalidades que hoje são seus
fãs.
MOA
SIPRIANO: Em pouco mais de
três anos, acabei me consolidando como "escritor
icult" graças à Internet.
Minhas obras são lidas e conhecidas
em praticamente todo o Brasil.
Ser o primeiro
escritor brasileiro, gay assumido, a disponibilizar "literatura
gay de qualidade" gratuitamente na forma
de ebooks (livros digitais) foi minha
grande sacada para angariar fãs ardorosos
e fiéis. Meu público é formado
por pessoas de todos os níveis sociais.
Tenho um séquito de fãs dos 15
aos 70 anos, sendo que a grande maioria está situada
na faixa entre os 25-45 anos. Um detalhe muito
interessante é que mais de 60% dos meus
leitores se declaram heterossexuais ou simpatizantes!
Sobre "personalidades",
bom... digamos que mesmo não se manifestando
abertamente, sei que praticamente todos os gays
de destaque no cenário artístico
brasileiro sabem quem é "Moa Sipriano".
E após sete
anos dedicados à arte
de escrever com profissionalismo e tendo meus
livros baixados cada vez mais a cada dia, agora é apenas
uma questão de tempo para que eu também
seja reconhecido publicamente como uma "personalidade" de
conteúdo que produz arte homopop de primeira.
O
mais importante é saber
que hoje meu trabalho é muito respeitado
e que meus textos têm ajudado milhares
de gays e simpatizantes a compreenderem melhor
seus próprios mundos.
Essa é a minha missão.
E sei que estou cumprindo meus objetivos com
maestria.



OBS: Essa
entrevista foi feita por uma jornalista curitibana
simpatizante "uns par de meis" atrás.
Infelizmente minhas palavras jamais ganharam
as páginas do jornal no qual ela presta
seus serviços. Resolvi publicar o
texto na íntegra em moasipriano.com,
pois sei que minhas respostas são
um grande incentivo ao público que
curte minha arte. E também por ser
uma maneira legal de você, caro leitor,
conhecer um pouquinho mais sobre mim.

