

30
de abril de 2009
entrevista
do escritor moa sipriano
para a coluna diversidade

Coluna
Diversidade: Você tem algum sonho?
Qual?
MOA
SIPRIANO: Sempre fui um cara
muito simples, tanto no jeito de ser, quanto
nas atitudes, na vida em si. Sou um cara
que conhece o Luxo e conhece o Lixo. Sou
um homem com um poder de adaptação
altíssimo: me viro sempre o melhor
que posso em qualquer situação.
Eu não cultivo mais sonhos, apenas
traço objetivos concretos. E meu objetivo
maior nessa existência é ser
um dos melhores artistas-militantes gays
que o Brasil já teve. Ainda não
sei se um dia serei reconhecido apenas pela
minha literatura, por exemplo, mas sei que
vou deixar minha marca e que minha obra será lembrada
como referência por muito e muito tempo.

CD:
Seus textos são
escritos de forma bem clara, sem muitos resquícios
de tradicionalismo gramatical, é uma
regra na sua escrita?
MOA
SIPRIANO: Nunca
me vi como um literato-chato obsessivo com
a perfeição da gramática
possivelmente embutida em minhas frases de
impacto. Nem tenho pretensão alguma
de um dia atingir a perfeição
literária como manda o figurino. Não
sigo regras. Eu quebro tudo o que aparece
muito certinho em meus textos. Acredito que
há fragmentos de genialidade em algumas
passagens de alguns dos meus contos, como
também há incríveis
momentos clicherianos os quais são
tremendamente difíceis de se esquivar.
Mas, fazer o que, a vida é uma sucessão
de clichês, tal como essa frase que
acabei de postar (risos). Eu adoro o jeito
que costuro minhas histórias. Adoro
escrever palavras erradas e esdrúxulas
de propósito, pois me divirto com
a sua sonoridade. Minha arte escrita é e
sempre será HOMOpop, de consumo imediato,
voltada para a diversão do momento,
mas que no fundo possa também proporcionar
alguns instantes de reflexão.

CD: Existe algum texto de
sua autoria que você teve como inspiração
o ato de seu pai estar ausente?
MOA
SIPRIANO: Não posso
negar que há traços da ausência
do meu pai bem marcados em alguns contos:
meus "mocinhos" são em sua
maioria homens solitários onde a figura
da mãe, da tia ou da irmã sempre
se faz presente como alicerce da família
(uma
carta para hans, o
cunhado, um
homem chamado augusto, feliz
aniversário). Há um romance
- ainda inédito - onde traço
uma linha muito tênue entre a ficção
e o que representou para mim a total ausência
paterna. Digamos que seja o meu "tapa
na cara" pela não presença
de um pai nos momentos mais importantes da
minha existência. Esse
romance, assim espero, um dia vai dar
o que falar entre pais e filhos. Vamos ver
se consigo exprimir tudo aquilo que carrego
dentro de mim sobre essa questão.

CD: O que é a Internet
para você?
MOA
SIPRIANO: É o
meu enlace com o mundo. É a minha
porta, a minha janela, a minha estrada, o
fio que me liga às pessoas que gosto
e também ao vasto universo de possibilidades
no contato com uma fantástica diversidade
humana que me inspira e me incentiva a dar
o máximo de mim, cada vez mais. Minha
arte é fruto direto da "geração
plugada". Eu não seria o artista
que sou e muito menos teria conquistado o
espaço que já conquistei sem
a ajuda da Internet. Na verdade, sem a Grande
Rede eu não seria ninguém,
ou pelo menos estaria fadado a viver uma
vida totalmente isolado de tudo. Por mais
estranho que isso possa parecer - já que
muitos se escondem atrás das telas
luminosas - eu sigo o caminho contrário: é pela
Internet que consigo me expandir de uma tal
forma que seria impossível de outra
maneira, seja ela financeira ou física
mesmo: de estar presente e atuante em diversos
lugares ao mesmo tempo.

CD: Você diz no seu
perfil que as pessoas têm que fazer
muito esforço para conseguir tirar
você do sério. Que tipo de esforço?
MOA
SIPRIANO: Eu
sou um homem muito, muito calmo. Sou tremendamente
compreensivo e um excelente "ouvido".
No trato com as pessoas, tudo pra mim é um
eterno déjà vu, já que
a rotina de muitos é algo pelo qual
eu já passei tantas vezes, já me
quebrei tantas vezes, já aprendi com
os erros tantas vezes, que acabei por tornar
a prática da paciência algo
corriqueiro e enraizado dentro de mim mesmo.
Ser paciente me faz ser forte acima da média.
O que me tira do sério é a
burrice alheia. Não suporto ficar
ao lado de quem não evolui, não
busca conhecimento, não faz nada para
melhorar sua condição de vida,
não progride seja no que for. Gente
ignorante se educa com carinho e compreensão.
Gente burra deve ser ignorada até que
aprendam a se valorizar por si mesmos e dar
o primeiro passo em busca de suas realizações
pessoais. O que me tira do sério é a
hipocrisia em qualquer grau manifesto. Eu
perco o controle quando alguém tenta
me impor algo. Trocar conhecimento e expor
pontos de vista é algo válido
e sadio. Impor uma verdade sem base concreta é algo
medonho e que... me tira do sério...
mesmo!

CD: Estamos sempre expostos a
muita discriminação o tempo
todo, você já sofreu algum
tipo que seja relevante ressaltar?
MOA
SIPRIANO: No
que diz respeito à homossexualidade,
eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito
pelo simples fato de nunca ter deixado isso
acontecer. Ser o que escolhi ser na intimidade
sempre foi um ato de orgulho para mim, mas
não um ato de exposição
sensacionalista. Se "dou" ou "como" ou
gosto de branco, de preto, de verde é algo
que não preciso cantar aos quatro
ventos. Sou um homem que gosta de homem,
mas que não deixou de ser homem em
momento algum. É isso que deixo claro às
pessoas, desde que me conheço por
gente. E mostro a todos como me aceitar,
gostar de mim e conviver comigo pelo homem
que eu sou, pela minha personalidade, pela
minha sinceridade, pelo meu caráter,
pela minhas capacidades fraternal ou profissional,
que seja, de acordo com a situação.
Não permito que a minha vida social,
familiar e espiritual interfira no que faço
na cama ou quem escolho para amar. Eu me
aceito sem julgamentos, eu aceito você sem
julgamentos. Eu me dou o respeito, eu exijo
respeito. Eu conheço o meu espaço
e jamais invado o seu espaço sem sua
permissão. Acho que é mais
simples viver assim. Aliás, eu acho
a vida muito simples de ser vivida.

CD: O que mais te irrita
na sociedade brasileira atual?
MOA
SIPRIANO: O
que me irrita na sociedade como um todo é o
egoísmo, a burrice e a hipocrisia.
Se você tentar ser você mesmo
e não ser "mais um" igual
a todo mundo, isso por si só já causa
estranheza. Ser sincero e seguro demais incomoda,
assusta quase que todo mundo. Na verdade,
o que me irrita mesmo no convívio
entre seres humanos é a total falta
de diálogo direto, franco e verdadeiro.
Se conversássemos e ouvíssemos
mais entre nós, seríamos mais
leves, mais abertos, mais cultos e felizes.

CD: O que você acha das
Paradas GLSBT no Brasil?
MOA
SIPRIANO: Acredito que como
encontro de amigos, de pessoas que tomam
coragem de "sair do armário" ou
de um desejo sincero de fazer valer a sua
voz, é bacana. Mas, na verdade, a
maioria gritante das paradas não passa
de mais uma vitrine de corpos que buscam
corpos para hora e meia de prazer numa quebrada
qualquer no final da festa. Esse papo de
que fazer parada dá mais "visibilidade" à causa GLSCheia-de-letrinhas-que-não-acabam-mais acho
meio furado. Militar por uma causa e sair às
ruas numa data especial como ato de manifestação é válido,
claro. Mas o bambee que sai apenas atrás
do trio-dance-trash-elétrico sem
mais, nem porque, e fica caçando feito
lôca ou expondo feito lôca a
bunda de fora, achando que isso é "ser
gay"... pra mim isso não vale
absolutamente nada... é tudo festa... é tudo
um vazio tremendo.

CD:
Ser um bear no
Brasil é...
MOA
SIPRIANO: Não
me prendo a rótulos. Ser bear-barbie-bambee tanto
faz (risos), o que vale é se sentir
bem na tribo que você habita ou é aceito.
O que vale é encontrar parceiros com
a mesma afinidade, seja para a amizade, para
o "ficar" ou para o amor. Mas confesso
que acho legal essa "divisão" ursina.
Não sei bem onde me encaixo corporalmente,
mas até que acho que sou um urso bem
interessante!

CD: Quem é Moa Sipriano?
MOA
SIPRIANO: Moa Sipriano não é ninguém
que ostenta títulos ou posições
sem fundamento. Moa Sipriano é um
homem humilde que apenas se esforçou
muito para se manter o homem que é hoje:
simples, ponderado, inteligente, culto, sincero
ao extremo, bom amigo, bom companheiro. Moa
Sipriano não é perfeito - longe
disso! -, mas é apenas um alguém
que superou há muito tempo a barreira
da mediocridade e, nesse sentido, é um
homem moldado por uma existência sem
privilégios, mas vivida com criatividade
e muita força de vontade. Moa Sipriano
não é fútil. Moa Sipriano,
diferente de muitos - principalmente no "universo
volátil gay" - é AUTÊNTICO!

CD: Você é um
homem apaixonado?
MOA
SIPRIANO: Sim.
Sou um homem apaixonado em todos os sentidos.
Na verdade, eu me considero o "último
romântico". Sou o cara meigo e
delicado que adora um mimo e ao mesmo tempo
sou aquele cara rústico que tem a
pegada certa, na dose exata, no momento adequado.
Sou um homem que sabe proclamar palavras
de amor, que sabe proporcionar o real carinho
como nenhum outro. Sem um pingo de modéstia,
quando eu amo, sou um homem perfeito... em
todos, todos, todos os sentidos! Sozinho
ou acompanhado, estar apaixonado é o
que movimenta a minha verve criativa. Eu
não produzo nada sem amor.

CD: Você acredita que
a polêmica é a sua melhor arma
para o seu empreendimento?
MOA
SIPRIANO: O
que para muitos é considerado "polêmica",
para mim é apenas um ato de coragem
em expor aquilo que vivo, aquilo que penso,
aquilo que considero uma verdade alicerçada
em fatos. Eu me dou a liberdade de usar a
minha arte apenas para abrir caminhos. Se
aqueles que apreciam minha obra encontram
nela passagens que possam iluminar suas existências, é isso
que para mim é válido. Eu,
Moa, como pessoa, não sou ninguém.
E nem dou bola para mim-eu-mesmo. Mas não
meço esforços para chamar atenção às
causas que considero importantes. Se para
isso eu tiver que malhar, ficar gostosão,
tirar a roupa, mostrar o cacetão,
fazer caras-e-bocas em fotos, em filmes ou
na pele dos meus personagens... eu o farei,
sem nenhum problema. Se para "ser alguém" eu
tenho que usar da polêmica e enfrentar
a caretice alheia e fazer a festa dos meus
fãs... pode ter trocentos por
cento de certeza de que ainda vou dar muito
o que falar!

CD: Como as pessoas podem
ajudar a manter sua literatura?
MOA
SIPRIANO: Novembro de 2008.
Essa foi a data em que tomei uma decisão
terrivelmente difícil de me isolar
de tudo apenas para me dedicar ao trabalho
literário. Assumi esse compromisso
para mim mesmo, acreditando que um dia meus
leitores possam reconhecer minha arte como
um bom produto de consumo; um produto de
qualidade que certamente tem o seu preço.
Hoje me mantenho apenas com apoio da minha
família e de poucos amigos que sempre
apostaram no meu talento. Minhas obras permanecem
gratuitas e livres para quem quiser baixá-las
através do meu site oficial. E após
a leitura dos meus livros, fica a critério
de cada leitor que quiser me
ajudar por vontade própria,
contribuir com qualquer quantia que ele ache
justo (meus dados estão presentes
em todas as obras), pois é com
esse "pingado" que
sustento a manutenção e hospedagem
do meu site e minha conexão à Internet,
por exemplo.

CD: Quais seus planos futuros?
MOA
SIPRIANO: Ter minha obra
reconhecida por alguma empresa do ramo editorial
ou encontrar um parceiro comercial que aposte
na minha arte como um todo, para que meus
futuros livros deixem o estado virtual para
se transformarem em obras impressas. Além
disso, quero adaptar muitos textos meus para
o teatro, cinema e televisão. Afinal,
minha obra é toda visual! Eu tenho
as ferramentas necessárias para que
isso aconteça, já que o nosso
mercado se encontra mais do que aquecido,
pronto para aceitar produtos culturais e
de entretenimento de alta qualidade. Só me
falta realmente um agente, um "parceiro
administrativo", que tenha um mínimo
de capital e boa formação empresarial
para me auxiliar na entrada definitiva no
mercado brasileiro e, porque não,
mundial! Eu não vejo a hora de abandonar
de vez minha pecha de "escritor icult" (risos).

CD: Deixe seu recado para
os leitores da coluna.
MOA
SIPRIANO: Ser feliz é fácil:
basta ser você mesmo. Quer saber qual
o segredo da Felicidade? É usar a
todo instante do diálogo direto, sincero
e sem rodeios. Ganha você, ganha quem
estiver do teu lado. Ser autêntico
atrai por afinidade pessoas que vibram na
tua mesma sintonia. Simples assim!


Perfil

LOCAL...
Qualquer lugar do Rio Grande do Sul,
o melhor lugar do mundo!
ÍDOLOS...
Jonathan Larson, Cláudio Pastro,
Jean Genet
CHEIRO...
Alfazema e, claro, o cheiro de um homem
rústico
BEBIDA...
Duas: Cerveja e chimarrão
MUSA...
Sra. Solidão é minha musa
inspiradora
MÚSICA...
The Impossible Dream (Alphaville)
FILME...
RENT!
LIVRO...
Kitchen (Banana Yoshimotto)
AMOR...
Cães, cães e mais cães...
de grande porte!


Macaé (RJ)
- Moa
Sipriano, escritor, autor de diversos livros
de "literatura gay", tem 40 anos,
nasceu em Jundiaí, SP no dia 13
de junho. Como ele mesmo se define, é um
homem simples, calmo, introspectivo, verdadeiro
e objetivo. Um homem à frente do
seu tempo. Entrevista exclusiva feita pelo
colunista alex
soares, da Coluna Diversidade.

