

18
de março de 2008
homossexualidade:
entenda
essa
forma
de amar
Araxá
(MG) - Entrevista
produzida pelos alunos João Henrique,
3º MIN, Barbara Ramalho, 3º ELT,
Ilza Carolina, 3º ELT e Alessandra Moraes,
psicóloga CEFET Araxá. Respondida
no dia 18 de março de 2008, via email,
esta entrevista foi realizada pela equipe
do jornal À OUTRANCE com apoio da
psicóloga Alessandra Moraes. O entrevistado
foi o escritor Moa Sipriano, que é homossexual
assumido, tem 40 anos. Como escritor, produz
exclusivamente literatura adulta de qualidade
sobre o universo gay masculino. Seus artigos
realistas e contos homoeróticos remetem à reflexão
de um modo extremamente agradável.

1. Para
você a partir de qual idade a pessoa
se define homossexual?
MOA
SIPRIANO: A idade física
pouco importa. O que conta é a idade
do amadurecimento, da descoberta de si mesmo
por si mesmo. Isso varia imensamente de pessoa
para pessoa. Conheço garotos (eu fui
um deles) que aos 14 anos já tinham
a percepção de que sentiam
atração física e emocional
por garotos, como também já acompanhei
casos de homens que só assumiram para
si próprios a sua homossexualidade
aos cinquenta e tantos anos!

2. Na
sua opinião como Deus vê a homossexualidade?
MOA
SIPRIANO: Deus não
está nem aí se você é Homo,
Bi, Tri, Quadsexual... Quem incute o preconceito
no homem é o próprio homem,
desde os tempos mais remotos. Ser "diferente" sempre
causou espanto em qualquer ciclo social da
humanidade. O problema todo é que
grupos de pessoas que se julgavam "esclarecidas" sempre
determinaram como deveriam agir e pensar
o resto da população.
É a velha
história do "faça o que eu
mando, mas não faça o que eu faço".
Traduzindo: hipocrisia pura e simples. Isso tanto
no meio religioso, quanto no político.
O uso do nome de Deus sempre foi e sempre será em
vão, pelo simples fato de que é mais
fácil se esconder por trás do falso
moralismo para atacar e condenar quem apenas
optou por viver um amor que - graças a
Deus - hoje tem orgulho de ousar dizer o seu
nome.
Afinal, a melhor
definição de Deus é: Deus é Amor!
Sendo assim, se Ele é Amor, se Ele é Perfeito,
Ele nos acolhe e nos aceita exatamente do jeito
que somos. Se Deus tivesse preconceito, não
seria perfeito, não seria "deus".
O fato de alguém
ser homossexual não o difere em nada em
relação ao seu semelhante. Amar
um homem, respeitá-lo, conviver com ele,
dormir ao seu lado, viver todos os momentos da
vida junto de quem nos faz bem... esse é o
roteiro natural a que todos nós estamos
submetidos. Em nada difere o amor homossexual
do amor heterossexual. O sentimento é o
mesmo. As atitudes são as mesmas. Os sofrimentos
e as alegrias do convívio, da intimidade,
da vivência são os mesmos. Deus
quer que a gente se ame. Simples assim!

3. Existe
diferença no modo da sociedade encarar
a homossexualidade feminina?
MOA
SIPRIANO: Na
verdade, perante a sociedade, hoje pouco
importa que apito você toca. O que
ainda choca, tanto héteros quanto
homos mais "comportados" é justamente
o exibicionismo sem razão de ser.
Gostar do mesmo sexo não implica em
você andar pelas ruas feito "mulherzinha" (gay)
ou segurando os bagos inexistentes e falando
grosso (lésbica).
Não é necessário
tentar se defender do mundo chocando o mundo
com atitudes irracionais. Isso também
vale para héteros, pois chega a ser desagradável
ver meninas que "ficam" a torto e a
direito com qualquer garoto que lhes dê bola
(inclusive indo para cama com qualquer um), quanto
garotos que se acham o máximo "pegando" qualquer "mina" para
provar aos amigos que são machões.
Enfim, viver plenamente a beleza da sexualidade
nada tem a ver com promiscuidade banal, exibicionismo
sensacionalista, vazio interior.

4. Qual
a sua opinião do beijo gay em público?
MOA
SIPRIANO: Manifestações
de carinho são válidas independente
da opção sexual de cada um.
Se você chega e beija um "selinho" no
seu namorado numa praça de alimentação
de um shopping, por exemplo, pode ter certeza
que não vai chamar a mínima
atenção de ninguém.
Agora, ficar expondo uma verdadeira batalha
de espadas melequentas boca-a-boca, juntando
a isso um emaranhado de agarra-agarra na
frente de quem quer que seja... que feio!
A questão
toda é a seguinte: a sociedade, hoje,
não tá nem aí se o vizinho
ao seu lado é gay ou não. Há uma
tolerância e até mesmo uma aceitação
bem maior aos casais gays de um modo geral. O
que causa desconforto, novamente, é o
exibicionismo sem razão de ser. Vai me
dizer que você não se sente incomodado
quando vê um casal qualquer se devorando
num lugar público? É muito chato,
concorda? Aprenda que quando se age naturalmente,
ninguém repara nas tuas atitudes.

5. Se
assumir é uma escolha, você vê necessidade
que ela seja feita assim que se tem certeza
de ser homossexual?
MOA
SIPRIANO: A pior fase para
muitos gays é assumir-se para si mesmo.
Todo gay acha que assumir é "soltar
a franga" perante a família e
os amigos. Absolutamente nada a ver! Você não
vai deixar de ser homem pelo simples fato
de gostar de homem.
Como eu disse antes,
o amor e os sentimentos são absolutamente
os mesmos. O problema todo é que o gay "enrustido" perde
tanta energia e tempo em ficar disfarçando
o óbvio que acaba sofrendo sem necessidade.
E isso muitas vezes por anos e anos e anos!
A partir do instante
que você amadurece e sabe que a sua intimidade
só vai ser completa ao lado de uma pessoa
do mesmo sexo, e você encara isso com naturalidade
(aprendam todos os enrustidos: ser gay é algo
natural e não uma aberração!),
tudo passa a fluir com muita facilidade. E com
o tempo - e no tempo certo! - você acaba
se abrindo com as pessoas as quais você mais
confia e ama, apenas confirmando um fato!
E se essas pessoas
realmente gostam de você (família,
amigos), devem te aceitar numa boa, pois você não
deixa de ser o que é como pessoa pelo
fato de viver plenamente aquilo que te faz feliz.
Agora, é claro que muitas vezes certas
pessoas se afastam de nós ou passam a
nos ignorar ao "descobrir" que somos
gays.
Nesse caso, o diálogo
direto e franco é sempre a melhor saída.
Mas se o outro lado não quer mais contato,
não quer conversar, apenas siga o seu
caminho e deixe a porta aberta para a entrada
de pessoas com a mesma afinidade que a tua. Esse é o
ciclo natural da vida.
Quem quiser ficar
e seguir em frente ao nosso lado, ótimo.
Quem não quiser... que cada um procure
a melhor companhia para a evolução
da sua própria existência.

6.
Deve-se contar para a família da sua
orientação sexual?
MOA
SIPRIANO: Sim,
sempre que possível. Mas devemos esperar
a hora certa e também nos abrirmos
com a pessoa certa. O que ocorre é que
ficamos eternamente no jogo tchongo de "esconde-esconde" e
evitamos a todo custo dialogar abertamente
com nossos entes queridos. O mais irônico é que
muitas vezes nosso pai ou nossa mãe
já sabe que somos gays, mas não
sabem como proceder, como chegar em nós,
geralmente apenas por não saber lidar
como o "novo" e temer assustar
o filho através de alguma atitude
incorreta.

7. Qual
a melhor idade para se assumir para família?
MOA
SIPRIANO: Não há uma
idade padronizada. O que conta é o
seu nível de envolvimento e estrutura
familiar. Se você é um filho
que tem total liberdade junto aos pais, onde
todos mantém o maravilhoso hábito
do diálogo franco e sem barreiras,
tudo acontece de maneira espontânea
até mesmo sem você perceber.
Mas é claro que isso é algo
raríssimo entre as famílias
de qualquer lugar do mundo.
Se você sabe
que o seu pai, por exemplo, é um homem
ignorante ao ponto de expulsar um filho de casa
por causa da "boiolice" dele, então
o mais sensato é esperar e buscar com
o tempo a sua própria independência,
tanto de idade quanto de estrutura material e
financeira.
Sei que é algo
difícil e até mesmo chocante para
muitos, mas se afastar da família e criar
vida própria até o momento ideal
de se por as cartas na mesa... muitas vezes é a única
e a mais louvável atitude a ser tomada.

8. Como
deve ser feito?
MOA
SIPRIANO: Deveríamos
escolher alguém em quem confiamos.
A mãe, uma tia, uma prima (as mulheres
são muito mais sensíveis e
receptivas no trato desses assuntos com um
parente gay). É natural também
que na maioria das vezes depositemos nossa
confiança em um (a) amigo (a) mais
velho (a) e experiente.
O grande segredo
do sucesso de qualquer empreitada que envolva
pessoas é um só: DIÁLOGO.
Direto, mais do que sincero, olho-no-olho, aberto,
sem rodeios. Ok. Pode ser difícil, mas é imprescindível.
Se resolvemos nos abrir com nossa mãe,
por exemplo, devemos escolher um momento propício, à sós,
sem nenhum tipo de interrupção.
E nada de fazer o gênero "vítima" ou
se sentir o pior ser humano da face da terra.
Nunca!
Você não
está revelando uma doença terminal.
Você está se abrindo com a pessoa
que te deu a vida!
Se tua mãe
te ama, ela vai te aceitar, até mesmo
não compreendendo com clareza como funciona "homem
com homem". O que nossas mães e nossos
pais mais temem é ter um filho "afetado",
efeminado, que seja motivo de chacota no seio
da família.
Por favor, não
se deve confundir afetação com
sensibilidade. Há casos de homens que
são verdadeiras flores no trato, e são
homens maravilhosos onde nada há o que
depor contra os mesmos.

9.
Quando homossexuais entram no mercado de
trabalho muitos procuram esconder sua verdadeira
orientação sexual com medo
de serem demitidos. Na sua opinião
este risco é verdadeiro e como lidar
com ele?
MOA
SIPRIANO: É uma
realidade besta constatar que ainda muitos
patrões e empresários julguem
a eficiência de seus funcionários
através do que os mesmos são
(e fazem, e agem) na intimidade.
Apesar do fato concreto
de que ser gay ou alienígena em nada afeta
nossas aptidões profissionais, acho um
desperdício de tempo ficar se escondendo
e criando artimanhas fajutas para camuflar o
que é mais do que óbvio.
Você deve ser
e agir como você mesmo, sempre. Independente
de onde estiver, claro que respeitando as normas
que regem uma empresa. Lá dentro é o
teu trabalho e os resultados oferecidos por você é que
são importantes. Fora da empresa, o que
você faz da tua vida é algo de tua
inteira responsabilidade.
O que jamais o gay
deve se submeter é ser humilhado ou coagido
por chefes ou colegas de trabalho que tentam
prejudicá-lo, julgando-o moralmente por
ser "diferente". Dignidade e respeito
estão acima de tudo e todo caso de homofobia
deve ser levado às autoridades competentes.
Ficar calado é ser condescendente com
o sofrimento desnecessário.

10.
Para você existe a bissexualidade?
MOA
SIPRIANO: Tenho
uma resposta dupla para essa pergunta.
Ser bissexual também é algo
inerente ao ser humano. Afinal, pra mim,
pouco importa com quem você tem prazer,
desde que ambos sintam prazer em estar
e fazer as coisas íntimas juntos.
O que eu não
aceito é a guerra, a dualidade que um
bissexual enfrenta para viver em plenitude suas
experiências sexuais com parceiros diferentes.
Explicando melhor, penso da seguinte forma: se
você é livre e sente prazer em praticar
sexo com homem ou com mulher ou com todo mundo
ao mesmo tempo agora... ok, tudo bem, desde que
o (a) parceiro (a) do momento saiba da tua opção
e te respeite por isso.
Mas a partir do momento
em que você se envolve amorosamente com
uma pessoa, e assume compromissos de relacionamento
estável com ela, como fica o quesito:
sexo x traição? Como viver com
um parceiro fixo, desejando de tempos em tempos "variar" com
outra pessoa do sexo oposto? Como administrar
essa dualidade, esse desejo? Ou vale o "hoje
eu namoro com homem", "se não
der certo, amanhã eu fico com mulher!"?
Deve ser muito difícil
viver com equilíbrio a plena bissexualidade
assumida. Ou se vive eternamente à procura
do sexo ideal, ou se vive eternamente frustrado,
pulando de galho em galho na intimidade alheia,
tentando encontrar a harmonia de um amor concreto.

11.
A escola atual está preparada para
lidar com a homossexualidade?
MOA
SIPRIANO: Quem faz o ambiente é você. É claro
que seria ideal se professores e coordenadores
de ensino fossem preparados para lidar com
essa realidade. O que mais me entristece é saber
que há centenas de professores gays
que hostilizam seus próprios alunos
gays, não tentando apoiá-los
e orientá-los com medo de serem julgados
pelos outros professores e colegas de trabalho,
onde a amizade de aluno-professor flerta
perigosamente com relacionamentos muitas
vezes complicadíssimos, pouco compreendidos
por pessoas não preparadas.

12. Como
os professores devem lidar com a homossexualidade?
MOA
SIPRIANO: Ser desprovidos
de pré-conceitos já é meio
caminho. Os educadores devem tratar seus
alunos com a mesma igualdade de direitos
e deveres. Não é porque um
aluno é "diferente" que
deva ser tratado como um doente ou como uma
aberração qualquer. Novamente
caímos no solucionador universal de
problemas: o diálogo. Dentro e fora
da sala de aula.
Ao notar que um de
seus alunos é motivo de piadas ou de agressões
físicas e morais por parte de outros alunos,
o professor deve buscar maneiras de interagir
com o problema contando com a participação
de todos: outros professores, diretores, coordenadores
e demais funcionários da escola.
Deve promover debates
e verdadeiros bate-papos entre os alunos, discutindo
abertamente a questão da homossexualidade,
tentando mostrar a todos a verdadeira beleza
da diversidade como algo comum e corrente.

13. Como
os homossexuais devem lidar com o preconceito
existente nas escolas, empresas e na sociedade?
MOA
SIPRIANO: Resposta
simples na teoria (mas que leva tempo para
ser assimilada): se dar o respeito em primeiro
lugar; em seguida respeitar o semelhante
com sabedoria. Viver tua vida numa boa,
sem necessidade de agressões fortuitas
do tipo: "Já que sou vead....
vou mais é escrachar mesmo!".
Atitudes desse tipo não fazem bem
nem a você, nem a mim, nem a ninguém.
Devemos cumprir com nossas obrigações
rotineiras perante nossas famílias,
amigos, trabalho, etc mas sem jamais permitir
que outras pessoas nos tirem o direito
de viver nossas vidas como desejamos.
Amar e ser amado é o
sonho de todos, independente de quem escolhemos
para viver nossa intimidade. Deus não
tem nada a ver com a tua vida, muito menos o
vizinho do lado esquerdo da rua. O que Deus quer,
o que eu quero, o que tua mãe quer é que
você seja feliz, independente do caminho
escolhido, que deve ser trilhado sempre de cabeça
erguida, com atos e decisões sinceras
e honestas. No mais... apenas seja feliz... e
faça alguém feliz ao teu lado!

14.
Como você explicaria a dificuldade
dos meninos terem amizades com meninos
homossexuais. E vice-versa.
MOA
SIPRIANO: Se você está bem
consigo mesmo, você atrai pessoas com
a mesma afinidade, independente de sua opção
sexual. Se você é um cara legal,
que joga super bem no time principal do teu
colégio, o fato de você ser
gay em nada influencia teus resultados nos
jogos, certo? Então, nesse exemplo,
teus colegas de estudo e de educação
física ou mesmo de baladas devem aprender
a te aceitar como a pessoa fantástica
que você é.
Um julgamento tonto
que muitos meninos fazem é que "todo
gay dá encima de todo homem". Pura
besteira. Da mesma maneira que todo mundo, o
gay também tem seu tipo ideal de homem
e se sente atraído por esse tipo escolhido
e não por "qualquer homem",
exatamente como o garoto que tem o seu tipo ideal
de garota. Simples assim!
E para os meninos
que acham que vão "virar gay" pelo
simples fato de conviver com um amigo homossexual...
santa bobagem... você não se garante?
Lembre-se que ter
amigos gays acaba sendo um aprendizado e tanto
para você, pois os gays têm o dom
da dupla sensibilidade: sabem o que é ser
homem e o que é sentir-se mulher no que
se refere à sensibilidade delas. E um
gay assumido (pra si mesmo) costuma ser um parceiro
e tanto para toda e qualquer atividade, já que
geralmente são aqueles que "consomem" muito
mais cultura, são antenados com tudo o
que acontece no mundo, tem sempre um excelente
papo e, claro, um humor ferino, sarcástico
e divertido como poucos.
Ter amigos gays é algo
maravilhoso, sem dúvida. Pois é gratificante
e belo poder viver num mundo repleto de diferenças
e ao mesmo tempo de igualdades. Tudo isso só acrescenta
coisas boas no decorrer da nossa existência.

15. Deixe
um recado para as pessoas que ainda são
homofóbicas.
MOA
SIPRIANO: O
que você ganha em julgar e maltratar
quem é diferente de você?
E afinal, você gostaria que todo
mundo fosse igual a você? Que "xatice" seria
o planeta, não é mesmo? Então...
aprenda a conviver com a totalidade do
mundo. E deixe esses "mundos diferentes" iluminarem
a passagem da tua vida, trazendo com certeza
muito mais alegria, muito mais amizade,
muito mais beleza para uma vida que poderia
ser apenas... medíocre. Pense nisso!



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