

14
de março de 2008
sipriano
e a religião, sexo, fãs e futuro
Jundiaí
(SP) - Curiosidade.
Foi por causa disso que resolvi escrever
ao escritor conterrâneo e assim degustar
um pouco mais de suas palavras. Queria saber
seus pontos de vista sobre uma porrada de
coisas. Eu consegui. Sanei minhas dúvidas.
E compartilho com você as minhas descobertas.

Gustavo
Koch: Nos seus contos, expressões
como "Dona", "Senhora",
entre outras estão muito presentes
quando são abordados certos sentimentos,
se assim posso chamar. O que te levou a criar
essa ideologia?
MOA
SIPRIANO: Sempre
fui um cara muito solitário e desde
pequeno elaborei essas expressões
de respeito perante os seres imaginários
que permeavam minha existência. Dentro
do meu quarto ou mesmo andando na rua, sempre
conversei abertamente com a Dona Solidão
ou a Senhora Carência numa boa, muitas
vezes tentando descobrir coisas ocultas em
mim-eu-mesmo, tentando dar sentido à minha
vida. Acho que é por isso que hoje
me divirto ao transpor essas bobiças
da minha adolescência em muitos dos
meus textos. É algo que já está entranhado
no meu estilo literário.

GK:
Lovland. Qual o perfil dessa cidade fictícia?
Como você a criou?
MOA
SIPRIANO: Quando escrevi
meu primeiro conto - uma
carta para hans - uma história
que foi baseada numa experiência pessoal,
eu não queria expor no texto os lugares
verídicos onde ocorreram os fatos.
Eu não queria mostrar Jundiaí (minha
terra natal) naquele momento. Eu queria construir
um lugar só meu, uma ilha talvez,
um mundo onde os gays fossem aceitos e fossem
tão gente como a gente (risos).
E tudo transcorreu naturalmente. Foi a partir
de "Hans" que meus enredos seguintes
foram localizados na ilha de Lovland de um
jeito muito espontâneo.
Muitos anos depois,
quando fui morar em Ilha Comprida (SP), recebi
como um choque visual e emocional através
das imagens que refletiam em minha retina. Praticamente
todos os lugares da ilha real eram idênticos
ao mundo loveano que eu havia criado.
Foi um baque e algo
muito difícil de "engolir" essas
coincidências. Foi meio que chocante caminhar
pelas praias e dunas e construções
e tudo o mais... e tudo aquilo eu já tinha
visto, já tinha sentido, já tinha
exposto numa
dezena de histórias que deveriam ser
apenas "ficção".
Até hoje fico
meio atordoado ao visitar e descobrir novos pontos
da ilha. Tudo aqui é Lovland, tudo aqui é o
reflexo do que já escrevi e do que ainda
está por vir. Sim, é algo maluco
de se dizer... mas é a minha realidade.
Ilha Comprida é Lovland... pelo menos
no lado "natureza" desse paraíso,
porque no que se refere à 90% das pessoas
que habitam a ilha... abafa!

GK: “A
verdadeira religiosidade não precisa
de profetas, salvadores, livros sagrados
ou igrejas.” (Osho). Em
suas obras, tanto nos contos como nos artigos,
a religiosidade de um jeito ou de outro
está sempre presente. Em determinado
conto, você chega a se referir a
Deus, como sendo ele gay. Como você define
religião? E religiosidade? Elas
podem ‘andar de mãos dadas’ com
a homossexualidade?
MOA
SIPRIANO: Não afirmo
que Deus é gay
(manual prático para um suicídio
bem-sucedido), porque se Ele fosse o
mundo não seria a merda selvagem que é.
Mas, sim, a religiosidade está sempre
presente em meu trabalho.
O que descrevo em
meus contos de maneira até mesmo sarcástica é minha
luta constante contra a eterna hipocrisia que
ronda toda a vertente religiosa que rege a humanidade.
O que me revolta é a imposição
de uma Verdade Suprema. O que me enoja é a
deturpação de um ensinamento que
deveria ser divino, mas não é.
O que me tira do
sério é um macaco amestrado que
decora um livro histórico bater às
8 da manhã de um domingo na minha casa,
enfiar dez livrinhos repletos de imagens meigas
do Paraíso na minha fuça e insistir
comigo para que eu aceite o "jesus" dele
como meu Único e Supremo Salvador, sempre
impondo, impondo, impondo palavras fazias e situações
utópicas, sem me dar uma única
chance de questionar o questionável, de
trocar informações que possam levar
os dois lados a um consenso e a um mínimo
de respeito pela opinião alheia.
A Religião
criada pelo homem ainda é algo tremendamente
medieval e selvagem. Enquanto um bando de retardados
continuar usando o nome de Deus, de Jesus, da
Santa Maria do Pau Oco ou seja lá de que
entidade for em benefício próprio,
angariando fortunas com o sofrimento dos mais
ignorantes, matando gente em nome de um absurdo
qualquer manipulado por mentes dementes e cegas
que pregam apenas o ódio e a intolerância,
não me venha atravessar o meu caminho
com essa patacoada de palavras e sentimentos
egoístas e vazios.
Você ter fé e
se apegar a algo que te faça bem é uma
coisa. Mas você se tornar um fanático
ou um medíocre sem causa e impor seus
métodos de Salvação à ferro
e fogo perante os outros, é algo bem diferente.
Você pegar
um livro histórico cheio de remendos,
e transformá-lo em algo "sagrado" apenas
aos seus olhos, manipulando as palavras e interpretando-as
como te dá na telha é uma coisa.
Agora você dizer que é "iluminado",
que é um "escolhido de Deus" e
outras mediocridades e se achar o tal para usar
e abusar da boa fé das pessoas humildes...
enfim... abomino e luto de peito aberto contra
esse tipo de gente.
Ser gay ou ser qualquer
coisa que assuste o homem jamais será algo
abominável aos olhos de Deus. Pelo simples
e direto e real fato lógico que se Ele é Perfeito,
Ele é Amor, Ele é o Pai, ele deve
te amar e te respeitar do jeito que você é!
Dar o cu ou trepar
com meio time do Paulista de Jundiaí não
te faz melhor nem pior do que ninguém.
Ser homem, ser mulher, ser trissexual não
difere as tuas qualidades nem teus defeitos diante
de ninguém, muito menos diante do Altíssimo!
Quem tem preconceito,
quem acusa, quem julga, quem condena não é Deus
e nunca será. Quem tem esse tipo de atitude
selvagem é e sempre será o homem.
Há de se passar mais uns par de mil
anos para que a humanidade descubra o verdadeiro
sentido da existência de um Deus, de uma
entidade acima da compreensão mundana.

GK:
Ainda se tratando de religião, em
sua opinião, quais são os motivos
que levam a religião Católica à ter
verdadeiro ódio aos homossexuais?
O que você pensa sobre alguns dos pronunciamentos
do Papa, cujo qual você chegou a chamar
de "Benta", em oposição à homossexualidade?
MOA
SIPRIANO: A Igreja não
tem ódio dos gays. Pelo contrário,
ela teme os gays, porque sabe que são
os gays os verdadeiros pilares do catolicismo
moderno. Nos bastidores de tudo o que acontece
na Igreja, tem lá o dedinho manicurado
de um gay todo-poderoso, seja no seio do
Vaticano, seja na capelinha lá de
Pato Branco das Madeixas Rosas.
Mais uma vez, usa-se
do nome de Deus para condenar aquilo que - graças
a Deus - hoje apenas ganha mais força
e visibilidade a cada dia que passa: o famoso Bambee
Power!
Dona Benta pode falar
e gritar o que quiser, mas mesmo ela - a lôca
- não tem forças para impedir a
nossa ascensão.
O catolicismo é a
casa da hipocrisia. Que fique bem claro que essa
declaração se refere ao comportamento
medíocre de velhos bispos e padres caquéticos
e acomodados e não à fé de
ninguém. Controverso? Nem um pouco. Pare
e pense. Quem fala besteira e age dentro da mais
perfeita hipocrisia é uma ala da Igreja
composta de pessoas mais do que retrógradas.
Não condeno
e nem me atrevo a deturpar a esperança
e a fé daquela dona-de-casa que reza diariamente
o seu tercinho... ela eu respeito, porque essa
pessoa pede forças e ensinamentos - à sua
maneira - para um Deus em que ela deposita sua
fé e devoção. Mas cuspo
na cara de quem usa Deus para eliminar quem não
lhe convém, seja de que maneira for.

GK:
Como você se define em relação
ao seu gênero literário, e a
sua personalidade?
MOA
SIPRIANO: Sobre minhas obras,
tenho certeza de que produzo literatura de
bom nível, tanto técnico, quanto
criativo. Sei que muitos dos meus enredos
se baseiam em situações mais
do que clicherianas.
Mas a vida é um
clichê de sandices que insistimos em representar
a todo instante. Eu só acrescento um tempero
a mais, revelando aquilo que todo gay faz - ou
morre de vontade de fazer - e não tem
coragem de contar a ninguém (risos).
Acredito que o que
diferencia meu trabalho de outros escritores
que investem no tema da homossexualidade masculina é a
minha total ausência de pudores e frescuras.
Meus homens amam
mesmo, trepam mesmo, cometem as mais diversas
loucuras por amor ou por sexo ou por ambos, porque é assim
que tem que ser e não tenho vergonha de
revelar aquilo que vivi (em meus artigos) ou
o que aprendi com a vida (em meus contos). Tento
a cada história ser mais ousado, mais
polêmico, mais direto possível.
Sobre minha personalidade...
não acredito que eu seja lá essas
coisas (risos). Admiro minha inteligência
e minha capacidade fantástica de adaptação.
Acredito que sou um cara muito interessante para
um bom e longo papo.
Sou um homem fogoso
e que ama a vida. Sou um cara tranquilo e até mesmo
pacato, que gosta de viver sozinho ou rodeado
de poucas pessoas. Sou muito "na minha",
mas estou sempre disposto a entrar numa briga
desde que seja por uma boa causa.

GK:
Quais são suas expectativas em relação
as suas obras? Recentemente, foi divulgado
em seu site que os contos boneca
de pano e uma
carta para hans serão adaptados
pra o teatro. Conte sobre suas expectativas
em relação a isso, também.
MOA
SIPRIANO: Fiquei muito feliz
com a notícia de que um grupo de teatro
do Rio de Janeiro se mostrou interessado
em adaptar Boneca de Pano para o palcos.
E quase que simultaneamente um grupo de Santa
Catarina solicitou minha autorização
para também levar Hans aos palcos.
Tenho consciência que praticamente
todos os meus contos são extremamente
visuais e fáceis de serem transportados
para outros tipos de mídia. Toda a
minha obra é liberada para quem desejar
fazer um bom uso dela. E vibro de felicidade
quando isso acontece. Espero que Boneca de
Pano e Hans sejam um sucesso "ao vivo",
da mesma forma que estes contos conquistaram
milhares de fãs Brasil afora.

GK:
Para finalizar, o que você pensa em
relação aos seus fãs?
Como você os definiria?
MOA
SIPRIANO: Sou o que sou hoje
graças única e exclusivamente
aos meus fãs. O respeito que adquiri
em sete anos de exposição da
minha literatura a milhares de pessoas que
não conheço e que não
tem a mínima obrigação
de me bajular provam o quanto meu trabalho
tem qualidade. Recebo diariamente manifestações
intensas de pessoas de todos os cantos do
país. O carinho que recebo através
da Internet, seja pelo meu site, seja pelo
meu perfil no Orkut é algo assombroso.
O que me deixa bobo
de felicidade é saber que tenho leitores
fervorosos e fiéis de 13 a 80 anos! E
boa parte desses leitores se entregou aos prazeres
da leitura após conhecer os meus textos.
Tem coisa mais mara que isso?
É pelos meus
fãs que tudo o que eu faço vale
a pena. É saber que um parágrafo
criado por mim é capaz de mudar o rumo
de uma vida. É pensar que minhas histórias
comovem, excitam, levam ao debate e à troca
constante de informações entre
os próprios leitores. Enfim, sei que estou
no caminho certo e sei que há um montão
de bambees e simpatibambees que
idolatram tudo o que faço. Nesse ponto,
eu sou um cara de sorte. Eu sou um homem feliz!



Gustavo
Koch tem
15 anos. Mora em Jundiaí (SP). É estudante,
adora Inglês. Tem um blog de
surpreendente conteúdo onde expõe
suas opiniões e ideias... além, é claro,
de ser um especialista em enfartar professoras
tchongas.

