

17
de outubro de 2008
laços & botas,
a intimidade de um escritor gay
Londrina
(PR) - Moa
Sipriano é verdadeiro. Seus livros
são verdadeiros. Moa é livre.
Seus personagens também são.
Eles amam. Odeiam. Violentam. São
violentados. Amarram. Amordaçam. E
são amarrados e amordaçados.
Moa também. E seus sonhos se tornam
realidade em seu corpo e em sua literatura.
Transgressor, polêmico e sem meias-palavras,
Moa é gentil e atencioso como poucos.
Belo e muito talentoso, ele sabe qual é o
seu próprio valor. E também
que a felicidade é plena de quem não
vive inutilmente. Seja muito bem-vindo ao
universo íntimo de Moa Sipriano, na
minha opinião, é o maior escritor
gay da literatura contemporânea brasileira.

Bondage
Boy: Comecemos
com o currículo básico: Quem é Moa
Sipriano? Onde mora? Quantos anos tem?
No que trabalha além de escrever?
Por que tornou-se escritor?
MOA
SIPRIANO: Sou um homossexual
assumido, que sempre viveu plenamente a homossexualidade
sem medos, pré-conceitos, traumas
ou tabus. Sou um homem comum e corrente;
um cara tranquilo, extremamente calmo, direto,
objetivo e sincero em tudo o que faz, age
e diz.
Atualmente moro em
Ilha Comprida, litoral sul de SP. Tenho 40 anos
bem vividos. Além de escrever, exerço
diversas atividades autodidatas, tais como design
gráfico, fotografia, produtor de filmes
e de eventos socioculturais. Enfim, me considero
um verdadeiro "artista multímidia",
tendo experiência e fácil desenvoltura
em qualquer atividade ligada ao meio cultural
e à arte em geral.
Tornei-me escritor
pelo simples fato de ter encontrado na palavra
escrita o melhor meio de divulgação
das minhas verdades como um ser humano que vive
com serenidade aquilo que escolheu ser na sexualidade.
Tratar de temas ligados à homossexualidade
sempre foi meu foco principal e o sucesso dos
meus contos e artigos junto aos leitores prova
o quanto minha decisão foi acertada, transferindo
minha experiência de vida nos relatos homoeróticos
que todo gay um dia viveu (ou tem vontade de
viver).

BB: Como é seu
dia a dia de escritor? Como é um ser
um "escritor homoerótico"?
Você precisa de vídeos ou fotos
para atingir a excitação que
ilustra seus textos? Segundo uma lenda espalhada
pelo Orkut, é verdade que você escreve
pelado e costuma se masturbar enquanto cria
seus contos?
MOA
SIPRIANO: Minha rotina é tranquila.
Como moro literalmente em uma ilha, um verdadeiro
paraíso ecológico (pena que
politicamente é administrada de forma
muito precária), aproveito todo o
tempo livre para me dedicar com afinco ao
ato de escrever. Hoje sou muito disciplinado.
Passo horas caminhando - sempre solitário
- pelas belas praias de ondas calmas, idealizando
e construíndo os enredos dos meus
contos. E nas madrugadas, esqueço
do mundo ao meu redor e fico dedilhando frenéticamente
o teclado do meu notebook, dando
vida às minhas criações.
Ser tachado de "escritor
homoerótico" é algo bem interessante
(risos). Praticamente todas as histórias
que escrevo são ficcionais. Mas é claro
que muitas delas contém fatos que aconteceram
realmente comigo ou com pessoas próximas
que cruzaram meu caminho. Faço muitas
pesquisas e procuro ser o mais realista possível
em meus relatos. Acho que estou no rumo certo
(risos)!
Quanto a usar de
artifícios para compor as cenas mais "quentes" vividas
pelos meus personagens, afirmo que tudo vêm
somente da imaginação. Não
uso filmes ou fotos eróticas como fontes
de inspiração: tudo acontece dentro
de mim mesmo. Na verdade, acho que sou muito
fogoso e criativo (risos).
Sobre meus trajes
na hora da escrita, bom, geralmente uso apenas
bermudas surradas e confortáveis e um
par de havaianas azuis, nada mais, seja no verão
ou no inverno. Sou um homem muito quente... ops...
calorento!
Quando escrevo uma
passagem altamente erótica, apenas costumo
me surpreender com o desenrolar dos fatos pipocando
na tela, após uma leitura crítica.
Algumas vezes realmente fico excitado com o resultado
da cena, mas não chego ao ponto de me
masturbar fisicamente enquanto escrevo... na
verdade, tenho mais prazer quando leio os relatos
dos meus leitores sobre meus contos. Acho muito
bacana o que cada um consegue descobrir nas entrelinhas
daquilo que exponho. Isso sim me excita!

BB: Para
você, qual a diferença entre
literatura erótica e pornográfica?
Como define a sua literatura?
MOA
SIPRIANO: Será que
há realmente alguma diferença?
Seria a literatura erótica aquela "bonitinha,
mas ordinária" e a pornográfica
a "putaria descarada " em si?
Bom, eu acredito que pratico a primeira
opção. O segredo do meu sucesso
junto aos meus milhares de fãs é realmente
ser "excitante" sem ser "baixo" ou
pousar no lugar comum.
Escrever sobre homossexualidade
já tem um peso natural pelo fato de muita
gente ainda considerar nossos atos como algo
alienígena. Na verdade, acho que a essência
do meu erotismo em nada difere daquela do mundo
hétero: apenas vou fundo naquilo que relato,
sem frescuras, sem "putaria" deslavada
e desnecessária.
Meus homens fictícios
são decididos: eles querem, vão
e fazem aquilo que tem que ser feito. Prefiro
assim. Meu lema é: Faça... simplesmente
faça acontecer... mas faça tudo
com responsabilidade e assuma sempre os seus
atos... pelo menos para si mesmo!

BB: Quais
livros que encontramos em sua estante? E
quais recomenda para alguém que quer
ser escritor?
MOA
SIPRIANO: Sou
um leitor voraz. Desde pequeno mantenho o
hábito mais do que saudável
de ler tudo aquilo que cai no meu colo ou
passa diante dos meus olhos enquanto esquadrinho
as estantes de uma biblioteca qualquer (risos).
Descubro coisas incríveis tanto em
livros de bons escritores quanto em bulas
de remédio (risos).
Uma escritora que
admiro muito é patricia
cornwell, que escreve romances policiais
e que descreve com perfeição os
meandros da homossexualidade em alguns de seus
personagens rotineiros. Gosto do ritmo das suas
narrativas, dos desfechos de suas histórias,
enfim, sou fanático por ela (risos).
Para ser um bom contador
de histórias você tem que ser um
bom observador da rotina humana e, claro, gostar
muito de ler, não importa que tipo de
literatura. Essa bobagem de que tem que se ler
somente os grandes clássicos ou passar
tempo demais só preocupado com leis da
gramática, sem sair do primeiro parágrafo
das suas criações, querendo acertar
logo de cara, enchendo o dito-cujo de frases
perfeitas (que levariam um acadêmico ao
orgasmo), porém vazias em sua essência,
são pura perda de tempo!
Minha arte, por exemplo, é HOMOPOPular,
de leitura rápida, onde você aprende
o que tem que aprender e aplica o que deve aplicar
na sua vida prática e pronto. Não
sou um dinossauro literato. Apenas descobri que
minhas palavras tocam o meu leitor do jeito que
tem que ser: direto, certeiro, sem rodeios. Se
posso me gabar de algo, afirmo serenamente que
meus contos "salvam vidas desorientadas".
Minha homoeroticidade encanta e abre
sua mente. É isso que importa. Eu faço
você pensar e agir. Eu arranco você do
armário nafitalínico!
Então, voltando
ao assunto, minha dica é: leia de tudo,
mas tenha foco e saiba tocar o seu público,
da sua maneira. Pesquise a fundo sobre o tema
escolhido e transmita verdade nas suas palavras.
Se você não acredita naquilo que
escreve, como fará para que o seu leitor
acredite em você?

BB: Qual
o livro mais erótico que já leu
e por que?
MOA
SIPRIANO: "Diário
de um Ladrão (de Jean Genet)" e "Giovanni
(de James Baldwin)" foram histórias
que me motivaram a ser escritor. Mas o livro
mais erótico que eu já li foi
a Bíblia (edição protestante).
Algumas passagens dos Salmos e alguns relatos
de João ou de Pedro (entre outros)
no Novo Testamento são muito excitantes.
Tá tudo lá... nas entrelinhas.
Só não "pesca" quem
tem a mente embotada.

BB: Qual
dos seus livros lhe deu mais prazer e excitação
durante a escrita?
MOA
SIPRIANO: Sem
dúvida alguma foi 30
dias - diário das experiências
sexuais de jägger. Como esse romance
foi realmente escrito em tempo real (as
datas descritas no diário do personagem
são verdadeiras), foi um desafio
mastodôntico descrever eroticamente
todas as cenas dia após dia. Entrar
na mente de Jägger e realizar suas
fantasias eróticas e insanas foi
muito divertido e tremendamente perturbador
para mim.
Muitas vezes, após
escrever e postar os capítulos que comporam
a série (a primeira versão de "30
dias" foi escrita e colocada no ar como
se fosse um blog do personagem. Aliás
muita gente achou que os relatos eram reais!),
eu relia os textos e me excitava com as passagens
descritas. Como eu afirmei a pouco, você tem
que acreditar naquilo que escreve e dar o máximo
de si. Eu sempre pensava assim: "Se
eu não curtir o resultado, se eu não
me emocionar, não me excitar, o leitor
não vai aprovar o enredo final".
Outro conto que me
deu muito prazer em escrever foi meu
pai, meu homem. O relato saiu de uma pancada
só. Escrevi o conto em apenas quinze minutos,
sem edição. E foi a primeira vez
em que meu pau grosso simplesmente se recusava
a adormecer enquanto eu escrevia. Acho um dos
meus melhores trabalhos.

BB: Seus
livros são extremamente fetichistas
e realistas! É certo imaginar que
você seja adepto de boa parte deles?
Onde começa a realidade e termina
a ficção em seus textos?
MOA
SIPRIANO: Sou apenas adepto
do bom sexo. Odeio papéis pré-definidos
e frescuras de qualquer natureza durante
o ato sexual. Gosto de homem, com jeito,
atitude e postura de HOMEM. Para mim pouco
importa se o cara "dá" ou "come" ou é "total-flex-power".
Sou o tipo de macho que se entrega, que vai
fundo, que abraça a fantasia do companheiro,
que embarca sem medo nas entranhas do prazer.
Sou extremamente exigente na cama. Homens
indecisos me brocham. Maricas e bichinhas qua-quás...
idem!
Ao mesmo tempo que
sou um poço de sensibilidade, um carinhoso
indescritível e um incurável romântico à moda
antiga, sou também um vulcão, um
selvagem indomável durante o sexo bem
feito. Se há química, se existe
afinidade com o companheiro em questão,
jogo tudo pro ar e "me jogo" num gostoso
duelo entre iguais, do jeito que só dois
machos sabem fazer.
Meus textos são
ficcionais. Mas os deleites relatados e vividos
pelos meus personagens são aquilo que
sinto e sou e que estou disposto a viver com
um homem. Definitivamente, na cama não
me prendo ao "papai e papai", jamais!
Para viver algo íntimo
comigo, o homem tem que ser autêntico,
real, verdadeiro e sem limites. Quer que eu seja
submisso? Quer que eu seja dominador? Quer que
eu seja delicado ou um cafajeste? Eu sou tudo
o que o outro quiser. Eu faço tudo o que
tem que ser feito, mas desde que AMBOS tenham
total prazer. Senão... nada feito.

BB: Além
de um excelente escritor, você é um
homem muito viril e extremamente sensual.
Você é uma pessoa tão
sexualizada quanto seus personagens?
MOA
SIPRIANO: Obrigado
pelo elogio. A resposta à pergunta
anterior mostra bem o que sou na intimidade.
Não tenho receio algum em revelar
aquilo que sou e o que sinto. Adicionando
mais informações, eu sou
pleno, sou completo. Arrisco a afirmar
que sou "perfeito" na cama, pois
sou decidido e vou até o fim e assumo
as consequências do ato total, repleto
de gozo mútuo.
Enquanto eu não "esgoto" meu
homem, não sossego. Exijo o mesmo em troca.
Realizo fantasias, sem medos ou bloqueios. Bater,
beijar, morder, amordaçar, fazer amor...
por inteiro. Não me imponho limites. Apenas
abomino qualquer coisa que possa ferir minha
estabilidade emocional ou integridade física.
Dor sem prazer é um absurdo!

BB: Seus
personagens realizam as mais inconsequentes
e deliciosas fantasias da literatura erótica
atual. No Orkut, suas fotos são muito
sensuais. Você e seus livros encorajam
o prazer. Como se sente sendo objeto de desejo
de milhares de leitores?
MOA
SIPRIANO: Nossa...
eu... desejado desse jeito? (risos)...
puxa... que legal. Bom, me delicio ao ler
as opiniões dos meus leitores e
fãs. Saber que meus textos excitam
e ao mesmo tempo fazem as pessoas refletirem
sobre as maluquices (risos) vividas pelos
meus personagens me deixa muito feliz e
orgulhoso.
Não me considero
um homem bonito, sexy ou fora do comum.
Apenas sou enigmático no que tange a uma
espécie de "barreira" que criei
para me proteger de "barcas furadas" e
de relacionamentos neuróticos e sem futuro.
Odeio gente vazia. Não suporto gente acomodada
e parada no tempo.
Sei que tenho qualidades
físicas (minha fartura de pêlos,
por exemplo) que encantam a maioria dos meus
fãs. Sei também que há muita
coisa em mim que poderia ser descoberta e apreciada
por quem conseguisse me decifrar.
A única coisa
que posso deixar no ar é o seguinte: tudo
o que relato em meu
perfil no orkut, por exemplo, é praticamente
a essência daquilo que sou, vivo e penso.
Então, para me conquistar... basta ler
nas entrelinhas e tomar a atitude correta!

BB: Recentemente,
você causou sensação
no Orkut ao postar fotografias sendo amordaçado
e com as mãos atadas. Seu livro laços & botas é um
dos mais excitantes e verdadeiros textos
ficcionais sobre Bondage escritos em português.
Portanto, duas perguntas são obrigatórias.
Primeira, você é adepto real
do Bondage? Segunda, podemos esperar mais
fotos suas amordaçado e mais textos
sobre BDSM?
MOA
SIPRIANO: O conto
Laços & Botas foi um marco na
minha curta carreira literária.
Escrevi o texto a pedido de um grande amigo,
também escritor, que adorava me
provocar contando relatos muito excitantes
sempre com a temárica "Bondage".
Fuçando em alguns sites do gênero,
observando algumas fotos e lendo alguns
textos, numa bela madrugada de outono pintou
a inspiração necessária
para dar meu toque pessoal sobre o tema.
Adorei o resultado desta minha primeira
empreitada (e acho que os leitores também!).
Com relação às
fotos, foi divertido fazer a sequência
onde apareço tatuado, amordaçado
e amarrado. Mesmo com o resultado amadorístico
das imagens, a repercussão foi muito legal
junto aos fãs. Como estou escrevendo mais
textos tendo como tema o bondage (tenho mais
quatro contos em estudo), em breve postarei uma
nova coleção de fotos onde apareço "bem
a caráter" (risos).
É pena que
infelizmente eu nunca tive a chance de praticar
o verdadeiro Bondage com alguém "fera
no assunto". Foram poucas as experiências
mambembes que tive aos 20, vinte e poucos anos.
Uma amarraçãozinha aqui, uma vela
acesa e parafinas fumegantes gotejando nas costas,
no peito, nas minhas nádegas e entre minhas
coxas fortes acolá... enfim... foi muitoooo
booommm...
Mas... será que
alguém tem coragem de me decifrar e se
habilitar para me introduzir nessa outra forma
de prazer?
A sorte está lançada.



bondage
boy tem
22 anos e mora em Londrina (PR). Atualmente
cursa Jornalismo.

