8 de junho de 2008
bate papo com o polêmico escritor moa sipriano

Itamaraju (BA) - Moa Sipriano é um dos escritores de grande talento em franca ascensão no Brasil. Com artigos e contos explorando exclusivamente a temática homossexual, Sipriano vem conquistando inúmeros fãs do universo GLS. Seus livros são picantes, polêmicos, inteligentes, críticos, excitantes e, principalmente, gratuitos, pois, estão disponíveis na íntegra em seu site oficial para que qualquer pessoa possa baixá-los. Em uma conversa descontraída e empolgante, Moa Sipriano falou sobre sua vida pessoal, inspirações, amores, sua opção sexual, seus livros, projetos e muito mais. Houve a participação de convidados do repórter desta matéria, que fizeram perguntas e tiraram dúvidas com o escritor.

Hélcio: Moa Sipriano, você é um escritor ousado, sensual, que explora de forma direta o mundo homossexual e bissexual, criticando esse universo e expondo a realidade do mundo gay de maneira ácida, polêmica e objetiva, além de falar, principalmente, do amor gay. Diga-me tua idade e data de nascimento?

MOA SIPRIANO: Tenho 40 anos e nasci no dia 13 de Junho de 1968.

Hélcio: Está chegando a data do teu aniversário. Qual a sua cidade natal e onde reside atualmente?

MOA SIPRIANO: Nasci em Jundiaí, interior de São Paulo. Moro atualmente em Ilha Comprida, litoral sul de SP.

Hélcio: Você admite publicamente ser homossexual. Como foi esta descoberta, com que idade e por acaso você sofreu com algum tipo de empecilho para assumir a sua opção, seja por parte da sociedade que o cerca ou de sua família?

MOA SIPRIANO: Sou um gay completamente bem resolvido e feliz. Assumi minha opção íntima aos 14 anos. Essa descoberta foi tranquila. No tempo do colégio, percebi que era "diferente" dos meus colegas. Minha atração forte por homens mais velhos (no caso, um professor de Educação Física) e em não sentir nada por mulher - no que se refere à intimidade - me permitiram "sacar" que eu era de outra tribo (risos). Quanto aos empecilhos, não sofri absolutamente nenhum, encarei minha opção com extrema naturalidade. Primeiro me abri com amigos, logo em seguida, aos 16, com minha mãe. Aos 18, eu já vivia plenamente aquilo que optei.

Hélcio: Quanto a sua estrutura familiar, foi uma estrutura "normal": pai, mãe e irmãos?

MOA SIPRIANO: Não. Meu pai nos abandonou quando eu tinha 12 anos. Sou o filho mais velho, tenho duas irmãs.

Hélcio: Este é um assunto polêmico. Na sociedade, principalmente na questão religiosa, ainda existe a não aceitação quanto à questão homossexual. O que você pensa sobre o assunto?

MOA SIPRIANO: Toda religião é hipócrita e rumina fortes contradições. Cabe a cada um encontrar seu caminho e equilíbrio junto ao Sagrado, sem jamais se submeter a qualquer tipo de humilhação por parte de quem "administra" a religiosidade.

Hélcio: Deus existe para você, ou seja, você é ateu ou crê na existência de Deus?

MOA SIPRIANO: Sim. Deus existe.

Hélcio: O que é Deus para você? E o que você tem a dizer sobre a questão bíblica, em Gênesis, por exemplo, sobre que Deus criou o Homem para a Mulher e a Mulher para o Homem, e assim, disse-lhes: "Vá, sede fecundos?" (cito a questão bíblica, pois, vivemos num país de maioria católica e cristã).

MOA SIPRIANO: Simplificando, Deus é uma força superior que rege todas as coisas no universo. A bíblia é apenas um livro de histórias moralistas e convenientes escritas por homens comuns e correntes que desejavam por ordem na turba ignorante de outrora. É um livro de histórias repletas de falhas graves em conteúdo e de interpretação, apenas isso. Mas a bíblia até possui passagens interessantes, poéticas e belas. É pena que o homem moderno (que de "moderno" não tem nada, continua um selvagem e ignorante no que se refere à religiosidade) ainda não saiba interpretar certas passagens deste "livro sagrado", deturpando completamente os parcos ensinamentos válidos que foram transmitidos de geração após geração. É pena que a grande maioria dos cristão não passe de "macacos amestrados" que repetem à exaustão os versículos bíblicos sem ao menos procurar compreender o que está escrito, levando tudo ao pé da letra, misturando o real sentido das palavras, deturpando ad infinitum um ensinamento que poderia ser útil em tuas vidas. Afinal, quem pode "provar" que Deus disse isso ou aquilo? Há muita conveniência na Palavra dita Sagrada. E o Gênesis é apenas uma alegoria; é sabido que o mundo e o homem não foram criados assim, de estalo (risos).

Hélcio: O que você pensa sobre o Amor?

MOA SIPRIANO: Bem, o amor é o combustível da vida do ser humano (êita clichezão!). Não faço diferenciação das maneiras de se amar, como algumas pessoas o fazem. Para mim o amor é único, apenas para cada tipo de relacionamento há um tipo de afinidade a mais, seja física, espiritual, emocional, fraternal, etc que acaba definindo nosso sentimento mais puro.

Hélcio: Quando foi e qual foi o teu primeiro livro escrito?

MOA SIPRIANO: Foi o romance uma carta para hans. Eu o escrevi originalmente em 1988, após uma experiência íntima que marcou profundamente.

Hélcio: Conte-nos o que ele representou para você, como foi esta inspiração para escrevê-lo?

MOA SIPRIANO: Tive um relacionamento meio que platônico por um homem, que acabou se transformando em um caso intenso, rápido, porém sem um pingo de futuro (eu era um jovem fogoso, mas muito imaturo - risos). Meio que "traumatizado" com o fim do contato - por culpa exclusivamente minha - fiz uma auto-terapia forçada, pondo-me a escrever pela primeira vez (na época, eu produzia filmes e já tinha familiaridade com roteiros). Gostei do resultado final e a partir dai vi que tinha jeito pra coisa (risos). Mas só encarei a sério a profissão de escritor ao publicar o conto HANS na Internet. A recepção foi muito positiva e calorosa. Por causa desse incentivo de anônimos espalhados pelo mundo, não parei mais de escrever.

Hélcio: Hans foi então, um personagem real?

MOA SIPRIANO: Sim. Toda a essência do texto foi baseada em fatos reais, inclusive a doença do personagem Hans (que, felizmente, na vida real está vivo e goza de excelente saúde até hoje). E um detalhe interessante sobre esse conto é que ele foi originalmente criado para ser parte de uma trilogia (o cunhado é a terceira parte e está disponível em meu site também). Em breve publicarei a segunda e última parte deste projeto literário, além de postar uma nova versão - revisada e ampliada - de UMA CARTA PARA HANS. Há ainda muita coisa para ser revelada sobre Hans e Gus.

Hélcio: Moa, acho que todos gostariam de saber, principalmente aqueles que não lhe conhecem, qual a sua forma de escrever, seus objetos para criar textos, o que você utiliza como inspiração, o que diferencia, para você, os seus textos, como por exemplo, de outros livros com a mesma temática?

MOA SIPRIANO: Tudo me inspira. Uma música, uma notícia, uma recordação, um momento de revolta íntima. A partir desses fragmentos, desenvolvo rapidamente o enredo dos meus artigos e contos. E o que diferencia meus contos de outros sobre o mesmo tema é que me preocupo em difundir conteúdo de qualidade, onde tudo é baseado em fatos reais, pesquisados, decupados, estudados, não me prendendo apenas a fórmulas mais do que batidas de "transas, corpos e amores" perfeitos.

Hélcio: Explique-nos, como é este processo de criação?

MOA SIPRIANO: Como venho da linguagem do vídeo, tudo é muito visual para mim, onde a história vem pronta, sempre "de trás pra frente". Sei o final e o começo do enredo, assim, de estalo, daí, enquanto escrevo, aparece o miolo, com certa facilidade. Meus textos, além de extremamente visuais, são diretos, sem muitas "frescuras". Não me considero um bom literato (risos), mas percebo que minhas histórias cativam o leitor, talvez pela veracidade dos fatos. Exponho coisas que todo gay já passou, mas não tinha como revelar. Usando uma frase dita por uma fã: "Eu revelo o segredo da tua alma".

Hélcio: Falando sobre os teus fãs, o teu público é exclusivamente homossexual e bissexual? Ou teus textos, a teu ver, podem também ser convertidos, dependendo da cultura e intelectualidade do leitor, para a linguagem heterossexual?

MOA SIPRIANO: Por incrível que pareça, 60% do meu público se diz heterossexual, e minhas histórias são universais; não têm sexo, apesar de abordarem exclusivamente a homossexualidade masculina. Se você "trocar" um personagem de masculino para feminino, a essência permanece a mesma. Tudo o que escrevo pode ser adaptado a qualquer realidade, de qualquer cultura, em qualquer situação. A boa arte, definitivamente, não tem definição sexual.

Hélcio: O sexo é totalmente explicito em alguns livros teus, como por exemplo, o livro 30 dias. Este livro foi inspirado em algo? De onde surgiu esta tua inspiração para escrever este romance?

MOA SIPRIANO: Eu havia escrito alguns meses antes de 30 dias, um conto bem explícito chamado filipe, onde eu revelava a história de um cara que achava que havia contraído o HIV, pego do patrão e ex-amante, e de repente resolveu "se vingar" transando com um monte de caras em um único dia. Como esse conto fez muito sucesso entre os leitores, um belo dia me veio a inspiração para desenvolver o projeto 30 dias (meu romance de maior sucesso na Internet até hoje). Foi realmente escrito um capítulo por dia como está registrado no diário do personagem Jägger, e como exercício literário, foi um tremendo desafio.

Hélcio: Em um momento de descontração agora, uma pergunta de um leitor, Gustavo Rocha, da cidade de Itamaraju (BA), para você: "A tua orientação sexual te incentivou a escrever principalmente para os gays?"

MOA SIPRIANO: Sim, completamente. Talvez pelo fato de eu jamais ter tido qualquer tipo de problema em ser homossexual, me senti quase que na obrigação de usar meus dons artísticos para ajudar outros gays a se tornarem livres; por isso meus artigos e contos retratam exclusivamente o "nosso" universo.

Hélcio: Além destes livros já comentados por você, temos o conhecimento de outros livros escritos por ti, que batem na casa das dezenas. Qual destes é o teu "predileto", e qual o mais "marcante"?

MOA SIPRIANO: O mais marcante foi um homem chamado augusto; este foi um texto que mexeu muito comigo ("sofro" muito quando escrevo, pois, me entrego totalmente ao enredo). Gosto também de o segundo travesseiro e meu pai, meu homem, que são meus contos mais “inspirados”. Mas o conto mais gostoso de escrever e que considero um marco na minha curta carreira ainda é 30 dias.

Hélcio: Qual o estilo de vida de Moa Sipriano? Estilo de música, filmes, arte em geral.

MOA SIPRIANO: Sou um cara muito simples no agir, ser e viver. Sobre meus gostos culturais, na música por exemplo, ainda estou preso ao pop dos anos 80, Depeche Mode, Erasure, Pet Shop Boys, New Order, Madonna, A-ha e por aí vai. Na leitura, adoro uma porção de escritores ingleses e americanos, e cito como exemplo Patricia D. Cornwell, minha verdadeira paixão. Nos filmes, adoro musicais, belas canções e coreografias inspiradas são veneradas por mim. Adoro filmes como Cantando na Chuva, Hair, West Side History, Moling Rouge, Amadeus, Riverdance etc. E claro, amo todos os shows da Madonna. Ela é tudo de bom: uma excelente profissional e uma artista de extremada grandeza!

Hélcio: Em pesquisa a alguns livros escritos por você, percebemos um diferencial na tua escrita, que é realmente a ousadia no tema homossexualismo, o que não é comum de fato no Brasil. Estes livros, ainda assim, estão livres para downloads na Internet. Você tem alguma parceria com alguma Editora para imprimir e divulgar teus livros ou você age apenas na Internet de forma independente e gratuita na distribuição on-line?

MOA SIPRIANO: Ainda estou na batalha por uma editora comercial que acredite no meu potencial artístico e grande potencial de retorno financeiro mais do que imediato (tenho total noção do "produto" de qualidade que ofereço). Uso meu site como vitrine do meu trabalho, daí a importância da gratuidade de tudo o que faço por enquanto. Acredito que agindo assim, vou angariando dia a dia centenas de novos leitores e fidelizando os mesmos. Sei que tenho um excelente produto nas mãos, reconhecidamente respeitado por praticamente todos aqueles que têm contato com meu trabalho. Não busco apenas lançar meus livros em forma impressa, mas tudo o que crio pode ser adaptado para o teatro ou cinema, por exemplo. Variedade e oportunidade de mercado fazem parte do meu trabalho enquanto artista. Daí eu ter plena consciência de que sou uma "mina de ouro" em potencial (sem falsa modéstia, apenas baseado-me em fatos concretos). Tenho pleno conhecimento do mercado "gay" mundial e sei que tenho muito a oferecer aos meus fãs, não somente na literatura. Então, deixo aqui o recado: Alguém se habilita a investir em mim?

Hélcio: Sipriano, como é o teu dia a dia?

MOA SIPRIANO: Meu dia a dia é tranquilo. Levo uma vida simples, por opção. Meu sustento por hora vem da criação e produção de sites e de mídia impressa (faço o design de jornais e revistas), e fora as horas de trabalho, eu dedico o restante do tempo a escrever com muita disciplina.

Hélcio: Você já participou em eventos na TV, como Jô Soares ou outros programas?

MOA SIPRIANO: Ainda não, por enquanto! Somente cedi entrevistas para jornais e rádios aqui da região de São Paulo, Sul do Brasil e Vale do Ribeira.

Hélcio: "O Brasil é um país preconceituoso, a união estável é uma boa estratégia para acaba com preconceito?", pergunta de Rafael Rodrigues, de Palmares (SP).

MOA SIPRIANO: O preconceito existe em todo lugar, Rafael, e cabe a mim e a você quebrarmos as regras e as barreiras um pouco a cada dia para conquistarmos o que nos é de direito, seja lutando pela não discriminação de uma união estável com o parceiro enquanto lei, ou qualquer outra forma legal de se viver plenamente o que escolhemos pra nós mesmos.

Hélcio: Voltando a falar de sexo, no livro 30 DIAS você expõe cenas realísticas e outras inimagináveis para o teu leitor. No momento em que Jägger descobriu que acabara de transar com um soro-positivo, de onde você conseguiu ferramentas para aquela cena, desde teu início, o romance, a entrega, do sentir bem de teu personagem até a revelação de forma macabra pelo personagem coadjuvante?

MOA SIPRIANO: Que fique bem claro que 30 Dias é um conto totalmente ficcional. Tudo o que foi relatado no diário de Jägger veio de impressões que captei ao longo dos dias durante passeios de pesquisa nas cidades citadas no texto (Jundiaí e Ilha Comprida), e também de acordo com meu estado de espírito, refletido claramente na pele do personagem Jägger. A moral de 30 Dias se baseia no seguinte: Jägger teve a coragem de se entregar indiscriminadamente a mais de 60 homens somente para constatar o quanto somos (todos nós) imprudentes quando buscamos uma válvula de escape para inebriar nossos baixos instintos. No final, mesmo sabendo que poderia está infectado, Jägger descobre-se apaixonado por um dos caras com quem ele transou, então deduz-se que o relacionamento só vale a pena quando se há amizade e respeito, fora isso, é somente sexo pelo sexo, inconsequente, sempre!

Hélcio: O que você pensa sobre a prostituição, seja de homens/mulheres, heteros/homos e também de adolescentes?

MOA SIPRIANO: A partir do momento que você tem consciência dos teus atos e decide "vender" teu corpo, é um direito seu de escolher levar a vida que bem querer. Mas no que se refere ao aliciamento de adolescentes e menores, isso para mim é abominável, pois, muitas vezes essas crianças não têm opção, não tem parâmetro para escolha, são escravizadas e forçadas a produzir prazer falso por pouco, ou muito dinheiro (para os outros, claro), e as consequências finais, todos nos sabemos. Enfim, não condeno quem se vende de livre e espontânea vontade, em busca do dinheiro ou da aventura fácil (se é que pode se afirmar que essa é uma vida fácil), mas condeno quem força ou obriga seres inocentes a fazer sexo sujo ou qualquer outra atividade ilícita que envolva a união de corpos.

Hélcio: Rafael Rodrigues, de Palmares (SP): Ainda na minha pergunta, que foi: ‘O Brasil é um país preconceituoso, a união estável é uma boa estratégia para acabar com preconceito?’. Existe alguma forma, ao teu ver, de amenizar isso tudo?

MOA SIPRIANO: Sim, Rafael, como te disse, pode-se acabar ou amenizar o preconceito utilizando-se das ferramentas da educação e do esclarecimento junto as pessoas ignorantes no que se refere ao "nosso" mundo. Assim elas têm a chance de aprender ao menos a nos tolerar. Um exemplo prático é o que as novelas globais e a mídia em geral - eu inclusive - andam fazendo para esclarecer a sociedade.

Hélcio: Renata Celestino, de Itamaraju (BA): Você se inspira em alguém em especial, um amor não resolvido, por exemplo, para tuas escritas, essa inspiração está em todos os livros, esta pessoa real, este amor real?

MOA SIPRIANO: Renata, praticamente todos os meus contos são ficcionais. É claro que sempre tem muito do escritor nas entrelinhas, mas nos assuntos do coração, apenas exponho fragmentos de coisas que eu vivi, das experiências que passei. Em carta para um amor perdido, por exemplo, encontrei uma forma de usar a ficção para revelar algo bem íntimo. Acho que isso reponde a tua dúvida.

Hélcio: Moa, vamos agora para um momento de interagir, se você permitir, gostaria de convidar quatro participantes para estarem aqui conosco neste papo!

MOA SIPRIANO: Fique a vontade.

Hélcio: E para iniciarmos, passo a vez para o Rafael Rodrigues.

Rafael: Obrigado. Nas novelas aqui do Brasil, o que mais está no auge são os relacionamentos gays, mas como acontece em outras novelas sempre o beijo na boca nunca aparece, ele sempre é vetado. O que você me diz sobre isto?

MOA SIPRIANO: Acho que o beijo em si, enquanto manifestação cultural e artística deveria ser liberado de uma vez por todas em "horário nobre". Mas por outro lado, mesmo que ainda não "role" o dito-cujo, todo o burburinho que isso gera acaba levando a população a discutir sobre o assunto, o que sempre é bom!

Hélcio: Sipriano, o preconceito contra homossexuais e bissexuais é explicito. Você, como gay assumido, sofreu ou sofre preconceito?

MOA SIPRIANO: Jamais sofri qualquer tipo de preconceito, pois sempre fui muito claro e direto em relação a minha sexualidade, seja no trabalho, na família ou junto aos amigos. Usar de diálogo franco e demonstrar respeito perante as pessoas do meu convívio foi o segredo do sucesso da minha aceitação. O fato de eu gostar de pessoas do mesmo sexo, não interfere no meu jeito de ser e agir, isso é o que demonstro nos meus relacionamentos sociais. Também acredito que não é necessário se comportar como um Bambee Alienígena recém saído de uma Escola de Samba para demonstrar a naturalidade dos nossos atos. Toda forma de exibicionismo sem sentido é algo deprimente, seja no meio gay ou em qualquer outro meio social.

Hélcio: Sipriano, os teus livros impressos têm alguma previsão para ser lançados?

MOA SIPRIANO: Espero que, com recursos próprios e com a colaboração de muitos leitores que colaboram financeiramente em meu site, de forma espontânea, lançar em breve o meu primeiro romance impresso, que já esta pronto. Agora, se pintar uma editora comercial, será excelente, pois tenho muito trabalho inédito a ser lançado.

Renata: Em alguma vez viu uma cena na qual te chamou a atenção, em realidade ou em novelas e daí se inspirou, ou sempre está focado dentro de teus próprios relacionamentos e vivências como disse anteriormente?

MOA SIPRIANO: Renata, novamente, tudo me inspira. Inclusive há muitas situações corriqueiras que não passam despercebidas, pois sempre "pego" alguma coisa para usar em meus artigos e contos. Geralmente as ideias para meus contos vêm durante longas caminhadas que faço todos os dias, religiosamente, e na sequência de pensamentos e sensações, vêm os enredos, então, um noticiário me inspira, assim como uma música, uma recordação, uma cena que vejo inclusive durante o caminhar, e ultimamente, os próprios relatos dos fãs acabam me inspirando a escrever, como demonstro em muitos de meus artigos, por exemplo.

Hélcio: Sipriano, a homofobia é um tormento na vida de inúmeros homossexuais espalhados pelo mundo, baseada nesta frase, "Hitler ainda não morreu!", o que você pensa?

MOA SIPRIANO: Tudo o que não é compreendido pelo homem o leva a cometer barbáries e atos de selvageria. Infelizmente há no mundo pessoas de mente pequena e embotada, além de egoístas, que não aceitam nada que possa fugir ao seus controles ou compreensão limitadas; então, cabe a nós, homossexuais ou não, denunciarmos esse tipo de ser realmente inferior que necessita de apoio em todos os sentidos.

Gutemberg: Olha, Moa, tive um caso homossexual e foi uma experiência marcante para mim. Esse caso para mim foi inesquecível, que conselhos você me daria para eu criar iniciativa para voltar a ter plena CORAGEM e ter meu relacionamento homossexual anterior?

MOA SIPRIANO: Basta estar bem consigo mesmo e jamais deixar de ter um diálogo direto e sincero com teu pretendente. Não é uma questão de coragem, e sim de se aproveitar as oportunidades. Procure-o e diga exatamente o que você quer. Se não houver reciprocidade da outra parte, siga o teu caminho e deixe a porta aberta, pois certamente outro alguém especial que te mereça de verdade, vai bater... e entrar no teu coração.

Laerte: Boa noite, primeiramente, você acha que os teus livros, por serem escritos por um gay, teriam mais evidência na mídia ou ainda muito preconceito?

MOA SIPRIANO: Olá Laerte, o fato de eu ser gay e escrever literatura "gay" deveria ser algo natural e comum, mas como tudo é rotulado pela mídia, acaba sendo um trunfo, afinal, só posso escrever sobre aquilo que domino, e acho que compreendo muito bem tudo o que se refere aos meandros da homossexualidade masculina. Sou muito respeitado enquanto escritor, e só não "estourei" na mídia pelo simples fato de não contar com um "padrinho" ou ter feito algo para chamar mais a atenção explícita dos meios de comunicação. Enfim, estou galgando um degrau de cada vez, para chegar ao topo e permanecer nele por muitos anos, pelo valor do meu trabalho. Afinal, o que é meu de direito, será conquistado.

Renata: Tenho vários amigos gays, e entre estes, alguns optam por não revelar a todos sua homossexualidade, e esta é a opinião deles, mas todos percebem. Qual o conselho que eu, como amiga, devo passar para eles?

MOA SIPRIANO: Ficar no “armário” e se esconder pra si mesmo é a pior das torturas. Pena que cada pessoa tem o seu tempo de se aceitar o que se é, mas a partir do momento em que você se assume para si mesmo, tudo se torna mais fácil e prazeroso, pois gastamos energia e tempo demais em esconder o que se é óbvio.

Rafael: Quero saber qual tua visão das boates GLS. Você não acha que essas boates seriam uma forma de preconceito dos homossexuais para com os heterossexuais, e isso não gera mais preconceito, em uma sociedade que se diz toda perfeita? Porque sou homossexual e consigo me divertir em todas as boates independentemente das GLS.

MOA SIPRIANO: Boates, bares e saunas, ou qualquer outro espaço social servem apenas para reunir pessoas com a mesma afinidade. Você pode se divertir em qualquer lugar, claro, mas muitos preferem se "refugiar" em boates gays pelo simples fato de se sentirem mais à vontade com os amigos ou com o parceiro, e não vejo nenhum problema nisso!

Laerte: Qual a relação que há entre você e o teu "Eu" com os livros?

MOA SIPRIANO: Há sempre um pouco do escritor na sua literatura, claro, como todo artista sempre deixa sua marca e traços de personalidade em sua arte, mas o que alguns leitores ainda confundem é o autor com o personagem. Tem gente que acha que sou eu quem vive todas as histórias que relato, infelizmente. Confundem meus devaneios literários com a pessoa que sou, pelo simples fato de eu também ser gay, tanto quanto meus personagens. Eu apenas retrato o que se passa em nossas realidades, como bom observador que sou. E mesmo que uma ou outra história revelasse mais sobre mim mesmo, não tenho porque esconder nada do meu fã. Sou um homem que não tem nada a esconder na sexualidade. Vivi e vivo intensamente todos os meus momentos íntimos.

Gutemberg: Qual fato em tua vida em que você se inspira mais para ter tanta consequência de relatos em teus livros?

MOA SIPRIANO: Sou um homem experiente, Gutemberg, e já passei por muita coisa no que se refere a relacionamentos e ao sexo, daí a desenvoltura em escrever com puro conhecimento de causa.

Hélcio: Quando haverá um lançamento ou uma proliferação de teu site aqui na nossa Região do Sul da Bahia, e se isto é feito em outras cidades do país atualmente?

MOA SIPRIANO: Meus artigos, por exemplo, são reproduzidos em muitos sites e blogs espalhados pelo mundo, dou total liberdade de reprodução de tudo o que escrevo para quem quiser aproveitar o conteúdo. Futuramente, claro, quero fazer o lançamento do meu primeiro livro impresso em diversas cidades espalhadas pelo Brasil, pois acho que devo isso aos meus leitores que tanto me incentivam.

Hélcio: Sexo com camisinha é realmente seguro! O que você tem a dizer para os nossos leitores sobre a AIDS, tanto os que não têm o vírus, como também os que estão infectados?

MOA SIPRIANO: Viver plenamente, independente de se estar ou não com o HIV. O prazer sempre conseguimos de qualquer forma, já que somos criativos e inteligentes o suficiente para nos adaptarmos a realidade imposta pela doença. Então, camisinha sempre e prazer sempre, sempre, sempre... intensamente!

Hélcio: Sobre teus livros, você trata de temas polêmicos como as drogas, e infelizmente, não só entre homossexuais, mas também com heterossexuais, as drogas se fazem presentes. "Drogas matam e contribuem para a proliferação da violência nas cidades" Dr. Drauzio Varela. O que você pensa sobre este assunto, drogas?

MOA SIPRIANO: Se usar drogas te faz bem e você não prejudica ninguém com teu vício (álcool, cigarro, maconha e etc.), o que é praticamente impossível diga-se de passagem, eu não condeno. Mas a partir do momento que você perde o controle, prejudicando tua família, teu trabalho, teu relacionamento, enfim, a si mesmo, você precisa buscar ajuda, se conscientizar de que tem problemas e tentar resolvê-los, e isto vale para tudo na vida. Agora, antes de que alguma anta cibernética me recrimine dizendo que o uso e a compra de drogas beneficia o submundo, já afirmo que isso é algo que infelizmente sempre vai existir... se há quem venda é porque há quem compre. Parece algo óbvio, mas todo mundo só sabe criticar e virar a cara para os problemas sociais. Solução que é bom... conta-se nos dedos quem sabe agir com afinco. Muito ainda tem que ser feito para que o mundo se livre dos seus vícios e cicatrizes.

Hélcio: Jägger, do livro 30 DIAS, também experimentou diversos corpos em diversos locais, banheiros públicos, galpões abandonados, orgias em casas de sexo, etc... Particularmente, conte-nos em qual das relações do teu personagem você mais se excitou, no sentido eufórico, em descrever?

MOA SIPRIANO: Foi muito divertido explorar as “relações amorosas” de Jägger, porque, como eu relatei anteriormente, eu escrevia e postava cada capítulo exatamente no mesmo dia em que acontecia a história, e as ideias das cenas de sexo apareciam depois que eu, nas minhas caminhadas e pesquisas, me deparava com algum local interessante ou ao ver algum grupo de pessoas que me chamava a atenção. Todos os locais descritos neste romance são reais. A locação e consequente cena que mais me excitou foi quando Jägger transou com dois rapazes numa velha estação de trem, em Jundiaí. Essa estação fica próxima à casa de minha mãe, e quando passei pelo local e vi dois rapazes fumando maconha em um canto decadente (a estação é abandonada), me veio na hora a ideia da “relação à três”, e acho que foi um dos capítulos mais excitantes do texto. Só para os leitores entenderem melhor como foi criar Jägger e os relatos em forma de diário; na primeira versão do conto, postado em meu site como se fosse um blog, a cada capítulo eu ilustrava as cenas com fotos reais tiradas dos locais pelos quais passei, daí a sensação de veracidade do relato.

Hélcio: A última aventura de Jägger surpreende pelo local - interior de um ônibus - e também pelo coadjuvante se revelar que queria ser a última “transa” de Jägger. Como você se inspirou para criar esta cena relatada com tanta maestria no livro?

MOA SIPRIANO: Foi algo inusitado e difícil, eu confesso. A inspiração veio da releitura de outra série de sucesso de minha autoria - poltrona 47 - onde o personagem principal tem diversas relações sexuais com homens no interior de um ônibus. Bom, voltando ao Jägger, como muitos leitores na época acreditavam piamente que Jägger existia, eu quis dar um tempero a mais no relato, como se um leitor que estivesse acompanhando a trajetória do curitibano em seu blog realmente tivesse o prazer de ser o último cara a ter sexo com ele. O resultado ficou acima do que eu esperava, gostei muito da transa dentro do ônibus com o cara bem-dotado (risos). Ops! Eu não... o personagem Jägger (risos).

Hélcio: Você se confunde com teus personagens? Pois, claro, doa para os personagens traços teus, como já comentou?

MOA SIPRIANO: Na parte emocional e romântica de todos os meus "homens" relatados em meus contos há muito de mim mesmo, confesso. Já na parte erótica, sexual; simplesmente exploro todos os desejos e fantasias que todos nós temos, mas que poucos tiveram coragem ou oportunidade de vivenciar plenamente. Sou um cara muito romântico e safado, é claro (risos). Cabe a você descobrir o que é fato e o que é ficção. Está lançado o desafio!

Hélcio: Há uma previsão de quando sairá uma versão também erótica com as mulheres sendo o foco principal?

MOA SIPRIANO: Tenho dois contos, que chamo de "copiões" - versões ainda não acabadas - que retratam a homossexualidade feminina, mas sinto que ainda não consegui captar a essência desse outro lado. Preciso me aprofundar mais, não estou preparado no momento para lançar algo lésbico, pois sou muito criterioso naquilo que escrevo e quero dar o melhor de mim quando lançar algo que envolva a intimidade de duas ou mais mulheres.

Laerte: Por que lançar livros gays, só direcionados a esse público?

MOA SIPRIANO: Meus livros não são direcionados a um público específico, Laerte, o que acontece é que apenas domino um nicho de mercado que somente agora está se abrindo no Brasil. Minhas histórias são universais, para todo tipo de público. Tanto que tenho uma legião incontável de fãs heterossexuais que admiram meu trabalho e usam o que lêem para auxiliar a compreensão e a tolerância para com seus próprios conhecidos gays. Essa é a diferença de se escrever literatura com a temática homossexual de maneira séria e responsável. Consigo excitar a imaginação e a libido do meu leitor, independente de sua opção sexual.

Gutemberg: Sobre todos os casos de tua vida, qual e que detalhe você queria reviver com muita consideração a essa pessoa?

MOA SIPRIANO: Nenhum. Eu não vivo do meu passado. O que pude usufruir ao lado de quem cruzou meu caminho, eu o fiz. Sou um cara prático e sigo sempre em frente, tentando assimilar tudo o que foi bom ou ruim em todas as fases da minha existência, transformando cada experiência em algo positivo e válido como um grande aprendizado. É verdade que uso da minha literatura muitas vezes para "homenagear" determinada pessoa ou conjunto de pessoas que passaram pela minha existência, afinal, o segredo de tudo está nas entrelinhas. E o que não pude dizer no passado o faço no presente, com arte.

Rafael: Moa, o que percebo é que a sociedade ainda estereotipa os gays, por exemplo, nessa nova novela da TV Globo tem um cara gay que é rico e tem outro pobre, que vai se interessar por ele por dinheiro. O que você acha de tudo isto, apesar disto acontecer na vida real, pois ouço vários relatos de amigos que sofrem esse tipo de coisa, pois, até mesmo eu, particularmente, já sofri e isso faz com que o psicológico dos gays fique pior. Tem uma frase que acho muito bonita "Os gays sãos as pessoas que mais sofrem no mundo, pois além de conviver com preconceitos das pessoas, vivem com o preconceito dentro de tua casa e consigo mesmo”.

MOA SIPRIANO: Gays sofrem e amam na mesma intensidade como qualquer outra pessoa, e o fato de existirem gays ricos e pobres que se relacionam, por dinheiro, acomodação ou falta de opção, não é um caso exclusivamente do nosso meio.

Renata: Sipriano, como você disse em um trecho de 30 DIAS: "o motorista trocou o sinal da ‘fodaria’ com o Jägger...". Se por acaso ele não fosse retribuído, como acontece em várias situações, e Jägger tivesse voltado, acha que poderia acontecer da mesma forma, por o que passa em minha cabeça, muitos tem vontade, mas poucos tem coragem e também iniciativa. Pode tirar minha dúvida?

MOA SIPRIANO: Quando estamos à procura de sexo, pelo menos é assim que acontece entre os gays, pequenos sinais universais são a chave para se dar inicio a algo mais íntimo, e gays são muito "cara-de-pau" nesse sentido (risos); se não deu com um, a gente rapidinho acha outro na mesma sintonia. Jägger apenas levou ao pé da letra os seus instintos; ele queria de qualquer jeito atingir o limite na relação desenfreada com qualquer tipo de homem que cruzasse seu caminho, então, ele simplesmente foi e fez, sem pesar as consequências (e quantos de nós não fazemos o mesmo, dia após dia?).

Hélcio: Maravilha, foi muito bom entrevistar você, Sipriano, e ter como companhia estas quatro pessoas distintas participando deste papo. Espero que você tenha gostado da conversa, e deixo aberto um espaço para vocês, Moa e participantes, acrescentarem algo neste encerramento.

MOA SIPRIANO: Quero agradecer a participação de todos, convidá-los para visitar meu site, e baixar 30 Dias e muitos outros títulos disponíveis gratuitamente. Perfeito, Hélcio, e muito obrigado pela oportunidade, adorei a tua iniciativa do convite e a experiência de me revelar aos novos leitores!

Rafael: Acho que quem ganhou nisso tudo fomos nós, os participantes, por esclarecer nossas dúvidas, tenho certeza que esclarecerá também as curiosidades de muitos leitores espalhados por ai.

Laerte: Gostei muito do papo, e tenha certeza que vou ler todos os teus livros, apesar de eu ser heterossexual.

Gutemberg: Adorei o papo e espero que venham a existir outros como este no futuro, muito obrigado!

Renata: Eu só tenho a agradecer ao Hélcio por abrir este espaço importante para que artistas de diversas culturas e orientações sexuais possam expressar sua arte sem nenhuma censura.

hélcio beuclair, 23 anos, vive em Itamaraju (BA), próximo a cidade de Porto Seguro. Técnico em Informática, atualmente aventura-se como repórter freelance para diversos veículos de comunicação na Bahia.

30 DIAS, romance de Moa Sipriano - baixe o livro gratuitamente!

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