

quando
um não quer...
Alceu “Fogoso” e
Fernando “Batata” se conheceram através
da Internet, pelas entranhas de um portal de
relacionamentos bambeesticos.
Troca de email daqui,
telefonemas acolá, dois meses depois,
decidiram se encontrar pessoalmente. Fogoso foi
visitar Batata em sua cidade natal. Foi amor
e tesão e paixão e desejo assim,
tipo: pá-pum-bola!
Afinidades emocionais,
química física... enfim, tudo indicava
que ambos haviam nascidos um para o outro.
Na hora do “vamo
vê”... que maravilha. Na cama tudo
se encaixava à perfeição.
Ambos atingiam pra lá do êxtase
em cada trepada. E era TRE-PA-DA mesmo! Daquelas
inesquecíveis, daquelas de corar de inveja
até mesmo o mais tarimbado ator pornô.
E o tempo foi passando.
Fogoso foi morar com Batata. E tudo eram flores,
mar e sol e sexo.
Como todo casal sonhador,
eles faziam planos, traçavam objetivos,
eram amigos, companheiros e ainda assim acreditavam
piamente que, enfim, cada um tinha encontrado
sua tão sonhada “alma gêmea”.
Pouco depois de um
ano de “casados”, num belo fim de
uma tarde de outono, Fogoso criou o clima ideal
para mais um princípio de uma noite de
amor intenso.
A frustração
foi geral. Sem mais nem menos, de repente, o
mundo maravilhoso dos ursinhos carinhosos despencou.
Batata porcamente
fez o trivial com Fogoso. Nada de beijos intensos,
nada de preliminares, apenas o chupar, meter,
virar e dormir. Recorde mundial entre os dois...
4 minutos e 28 segundos de fodaria.
A partir de então,
a cada investida de Fogoso junto ao seu marido,
mais e mais Batata se esquivava de qualquer contato
físico mais intenso.
O tempo passou. Fogoso
começou a “paranoiar” a relação.
Batata teria outro? Não, hipótese
totalmente descartada. Fogoso estaria descuidando
do seu delicioso porte físico? Também
não, Fogoso se cuidava e, cá entre
nós, era um moreno forte e peludo muito
apetitoso.
Além do sexo
não mais consumado, Batata perdia horas
e horas em frente ao PC, “caçando” fotos
de homens pela web, a torto e a direito, entupindo
agadês e pendrives com pintos, bundas e
músculos virtuais.
Fogoso não
conseguia compreender mais nada. E se afundava,
secretamente, no refúgio de suas cervejas,
no ostracismo da sua insignificância.
Os papos já não
existiam mais, o sexo... prefiro não comentar.
Cada um vivia num canto da casa, driblando o
contato, arraigados em seus cantos preferidos.
Fogoso, que era um
promissor artista plástico, mas já não
conseguia buscar inspiração para
criar ou até mesmo concluir suas obras.
O sonho pendia para um final pesadelo.
Acomodados, Fogoso
e Batata iam levando um relacionamento estranho
preso a uma corrente pesada, imaginária.
Três anos assim se passaram.
Cansado de sofrer
sem necessidade, Fogoso (sempre fogoso) numa
tarde horrenda de frio e chuva, tentou, mais
uma vez, criar o clima do amor para tentar uma
aproximação com Batata. Mais uma
vez, frustração. O “fazer
amor” foi um fiasco.
Armado de toda paciência
e compreensão mais do que supremas, Fogoso
decidiu abrir o jogo com seu amado. Falou, esperneou,
deu piti... por horas sem fim.
Batata, honrando
o sobrenome, continuava calado, amorfo, com aquela
usual cara de batata amassada.
Depois do desabafo
de Fogoso, Batata apenas arrematou o assunto
pronunciando a seguinte e derradeira frase:
“Não é você.
Sou eu. Eu não tenho mais vontade de nada.
Absolutamente nada. Eu... apenas... deixo rolar!”
Diante de tamanho
absurdo, Fogoso pirou e permaneceu por incontáveis
dias isolado em si mesmo, tentando encontrar
uma saída.
O tempo passou.
Fogoso, ainda apaixonado,
procurou Batata mais uma vez. Disse que estava
disposto a encontrar soluções para
combater o desânimo, a depressão
(sem razão de ser) e tentaria resolver
os problemas do amado. Afinal, quando se ama
de verdade, temos que ser participativos em todas
as fases da relação, boas ou não
tão boas... catastróficas.
O casal conversou
numa boa. Batata esboçou uma possível
reação. Sempre havia uma esperança.
O tempo passou. A
esperança, cansada e caquética,
deu no pé.
Nada mudou. Batata não queria ajuda, não queria apoio do companheiro
e muito menos acompanhamento de um profissional ligado a saúde (física,
mental, transcendental, seja o que for!).
Fogoso, quase perdendo
a lucidez, muniu-se do resto de paciência-compreensão
que ainda havia no fundo do tacho do seu coração...
tentou o diálogo, tentou uma maior participação
na vida íntima de Batata, mas... nada,
portas fechadas, nenhum acesso. Era o fim.
Fogoso preparou suas
coisas, era hora de partir. Se Batata não
queria dar um jeito na sua própria vida,
ele não tinha o direito de levar para
o fundo do mar o próprio companheiro de
jornada.
No dia seguinte, malas esparramadas na sala, Fogoso olhou bem no fundo dos
olhos de Batata, e deu a última sentença:
“É engraçado,
meu amor. Você vai ter que me perder para
que você possa, acredito, se encontrar...”
Fogoso partiu. Batata
ficou estático no meio da sala.
Com cara de batata
amassada.
* * *
Nenhum relacionamento é fácil.
Conviver com outra pessoa tem seus altos e baixos.
No caso verídico apresentado acima, Fogoso
fez de tudo para salvar seu relacionamento. Usou
do diálogo, usou da paciência, engoliu
muito sapo, aniquilou muito da sua rotina, personalidade,
expectativa... enfim... em prol daquele que ele
acreditava ser o companheiro ideal.
Batata, mesmo estando
visivelmente fora de si, não procurou
ajuda profissional, nem tampouco permitiu que
seu homem cuidasse dele, apoiando-o seja lá de
que forma fosse possível e viável.
A pergunta que fica
no ar é a seguinte: vale a pena continuar
investindo numa relação fadada
ao fracasso por culpa única e exclusiva
de uma das partes? Vale a pena embotar a própria
vida, perder inúmeras oportunidade seja
na carreira ou no lado pessoal, tudo por causa
de um companheiro que não quer evoluir
na vida?
Diz o ditado popular: “Quando
um não quer, dois não brigam...”
Se sua “cara-quase-metade” não se dispõe a crescer
com você, “travando” sua caminhada, seus sonhos, seus objetivos,
definitivamente não vale a pena continuar investindo em algo que trará apenas
desgosto e frustração.
Temos que ter coragem
para dar um basta a esse tipo de relação
conflitante. Se você utiliza de todos os
meios (diálogo, paciência, compreensão,
solidariedade) e mesmo assim o lindinho do outro
lado do sofá permanece com cara de batata
amassada... caia fora... procure uma nova trilha
que possa conduzir você rumo à Felicidade.
Afinal, só se
perde nas entranhas da traveca SOFRIDÃO
quem quer!
É difícil largar o amado, após tantos anos de vida em comum.
Mas não é justo arruinar sua vida por causa de um alguém
que QUER, de livre e espontânea vontade, ARRUINAR SUA PRÓPRIA vida.
Acreditel, todos
nós temos total liberdade de escolher
nossos próprios caminhos; de escolher
quem deve compartilhar da nossa existência.
Fogoso e Batata,
de qualquer jeito, tiveram seus momentos mágicos
e gratificantes. Se Batata não soube aproveitar
a dádiva do Amor que lhe foi oferecida,
cabe a ele se conscientizar das amarras que criou
a si mesmo... e buscar a humildade de assumir
que precisa de ajuda, de apoio, de uma nova chance
de ser feliz.
Tudo está ao
alcance de todos.
Pelo que me consta,
Fogoso ainda alimenta um fio de esperança
de voltar aos braços do seu Batatinha
amado. Mas, claro, Fogoso está seguindo
seu caminho, por hora solitário, na procura
da conquista dos seus sonhos, na realização
de suas metas, no desejo único de gastar
o resto da sua existência em algo que valha
a pena.
Fogoso quer deixar
sua marca no mundo.
E você?


