idem (ou "como eliminar caras sem iniciativa")

Rodolfo, mais conhecido como “Rod” entre os amigos, vibrou de tesão e paixão ao conhecer Leandro, “Leo” para os íntimos, durante uma festinha na casa da Lola.

Naquela madrugada, já chapados, bastou uma troca de olhares, um aperto de mãos, um beijo selinho-medonho, uma pegadinha aqui, uma apalpadela ali, cai-de-boca-chupa-chupa, vira-mete-goza... e pronto!

Foi assim que começou o namoro meigo entre Rod e Leo. Algo típico entre nós, não é mesmo?

Logo nos primeiros dias, quando tudo ainda é belo e florido, Rod achava o máximo tomar todas as iniciativas e decisões perante o amado.

Rod escolhia o filme que iriam assistir no cinema (eu adoro Missão Impossível – resposta de Leo: IDEM), Rod escolhia o sabor da pizza de sábado (eu gosto de calabresa – resposta de Leo: IDEM), Rod escolhia – e pagava – a armação dos novos óculos de Leo (acho azul o máximo e, olhe, combina com teu rosto! – resposta de Leo: IDEM).

Rod escolhia se dava ou comia o amado nas famosas transas de quarta-feira, após as 23, dentro do Gol bolinha azul-calcinha de Rod, que naquele dia em especial servia como motel ambulante numa quebrada escura qualquer, nas imediações da Barra Funda.

Rod gostava da quarta-perigo. Já Leo... bem... Leo embarcava em qualquer coisa.

O tempo passou. Numa quinta, no horário do JN, Rod e Leo comiam esfirras numa biboca que sonhava em ser Almanara, lá pelos lados da República. Rod estava prestes a mudar de emprego. Havia grandes ofertas e excelentes oportunidades espalhadas na mesa.

Rod, buscando apoio no companheiro, expôs todas as opções. Leo, claro, apenas balançava a cabeça, fazendo a linha “eu sou uma vaquinha de presépio”, e empurrava a decisão final para o amado amante.

Em outra ocasião, Rod enfrentava um problema sério com o pai alcoólatra. Internar, orientar, dar uma puta bronca no velho safado... o que fazer?

Rod buscou apoio do amado. O resultado? Mais do mesmo. Leo sofreu mais um ataque súbito de “sou uma vaquinha de jesuis...”... Rod tomou a decisão sozinho.

Mais adiante, vibrando com a promoção alcançada no trabalho, Rod quis comemorar o feito com Leo. Foram a um motel simpático perdido nas imediações da Serra do Japi.

Rod queria curtir algo diferente, que desse um “up” na camasexo de ambos. Rod sugeriu um cunete a Leo.

Leo apenas balançou a cabeça, tipo: “faça o que você quiser”. Rod queria abrir a trepada especial sendo a fêmea da noite. Rod, com muito custo, aprumou o cacete fino do amado em seu rabo, e Leo enfim comeu seu bofie assim, assim, mais ou menos.

Ainda não satisfeito, Rod quis meter em Leo, mas dessa vez, em uma posição diferente do usual, algo mais ousado. O que você acha de curtirmos assim, Leo, aqui na hidro?, disse Rod.

Adivinhe a resposta de Leo?

Três meses depois, Rod começou a ficar cansado de “arrastar” Leo a tiracolo. Tomar a decisão sobre tudo, a todo instante, tornara-se um fardo desproporcional ao “amor” que Rod imaginava sentir por Leo.

No começo de tudo, Rod até achava graça em ser o “bofie dominante”, em ditar as regras, em decidir como, onde e o porque de tudo.

Mas a vida de um casal não se resume a isso. Rod queria mais companheirismo. Rod queria mais divisão justa de tarefas e decisões. Rod queria que pelo menos uma vez na vida Leo tomasse a iniciativa de algo, seja na vida, seja na cama, seja em qualquer coisa!

Leo vivia estacionado. Era um bambee zombie bailando de cá pra lá, sem criar um alicerce, um algo fixo e centralizador que pudesse servir de base para a tomada de suas próprias decisões.

Pisando em ovos, Rod até tentou incentivar o amado a procurar ajuda profissional. A resposta de Leo?

“Faça como você quiser. O que você decidir... tá bão!”

E dá-lhe cabecinha pra cima, cabecinha pra baixo... eu sou uma vaquinha de presépio... múúú!

No quinto mês, a submissão e a falta de personalidade de Leo deu finalmente no saco. Rod estourou. Rod gritou. Rod esperneou. Rod rodou a peruca afro em todas as direções. Leo, impassível, apenas sacudia a cabecinha de vento.

Rod pediu um tempo. Sozinho, avaliou tudo o que havia vivido com Leo. Culpou-se, achando que não tivera toda paciência necessária junto ao amado. Mas ter paciência e compreensão com um sujeito que não quer alterar o curso de sua vida medíocre... é masoquismo.

Rod, num domingão do faustão, ainda tentou um retorno. Conversou com Leo, que pregava o olho nas videocassetadas... sem rir uma única vez.

A resposta para o recomeço?

“Rod, faça o que for melhor pra você. Faça o que quiser!”

Rod inspirou o ar quente do quarto sem ventilação. Levantou-se, aprumou a saia rodada, verificou as pontas dos saltos-agulha, jogou o cabelão pra trás e foi embora, decidido!

Metáfora à parte. Rod se foi. Leo, pelo que consta nos laudos, ainda está lá, vidrado no domingão, sem rir, sem chorar, sem levantar a bunda magra do sofá puído.

* * *

A pergunta é simples e direta: vale a pena conviver com um homem que não tem iniciativa para nada na vida?

Todos nós buscamos uma relação ideal. Todos nós idealizamos e sonhamos com um homem que possa suprir nossas carências. Todos nós almejamos um ser amado que complemente nossa existência.

Mas a partir do instante em que você conhece alguém e esse alguém não se prontifica a te surpreender em nada, absolutamente em nada no decorrer do relacionamento... enfim, que graça tem viver assim?

Comodismo? Medo da solidão? Conformismo?

Apresentar um mundo novo ao candidato do seu coração é algo louvável, mágico até. É delicioso poder trocar experiências de vida, somar qualidades, eliminar defeitos em conjunto.

É gratificante aprender com o outro, ensinar o outro, viver o máximo do tempo em equilíbrio, em harmonia, seguindo a mesma trilha que conduz aos mágicos instantes de felicidade.

Ser submisso ao outro, seja em qualquer tipo de relação, já é algo sacal; algo que em pouco tempo acaba, mina, avacalha com qualquer possibilidade de amizade ou de amor eterno.

A graça da vida está nas surpresas espalhadas pelo caminho. É tão gostoso quando o amado nos surpreende com aquele novo corte de cabelo, com a troca do perfume, com aquela caixa de bombons austríacos que você viu séculos atrás na vitrine daquele loja de guloseimas carérrimas e, de repente, meses depois, o teu lindão vem todo prosa com a caixinha mágica (sim, ele pagou a porra do chocolate em 12 vezes sem juros) e juntos vocês desfrutam dos aromas, dos sabores, das texturas, do prazer único de um momento único.

Enfim, o grande barato de se relacionar com alguém é simplesmente viver o grande barato de ser surpreendido sempre!

Isso vale para amigos, para familiares, para namorados, para todos!

Se você vive uma existência sem iniciativas, tudo acaba se tornando amargo e sem cor. Se você se submete a conviver com um homem que não quer ter iniciativa em nada, VOCÊ acaba vazio e sem sabor, tornando-se intragável perante outras pessoas que ainda te amam exatamente como você é.

A velha fórmula continua sendo a mesma: conversar, mostrar possibilidades, incentivar, indicar caminhos. E se após tudo isso o “vaquinha” do seu namorado não levantar a bunda do sofá... sinceramente, presentei-o com um tubo de superbonder... e vá ser feliz em outro lugar.

Quando a pessoa não quer evoluir, não quer aprender, não quer sair do lugar... você deve deixá-la encontrar o próprio caminho, traçar o próprio destino... infelizmente não mais pelo amor, apenas pela dor consciente e voluntária.

Dê um basta a todos os “vaquinhas” que permeiam a tua existência. Não permita que esses bambees zombies roubem tua energia vital. Muitas vezes, claro, é dolorido se afastar de quem nutrimos uma vaga esperança de mudança. Mas, não tem jeito, não temos o direito de forçar ninguém a ser ou fazer aquilo que acreditamos ser correto.

E pelo amor do jesuis encarnado... AMOR DE PICA NÃO EXISTE! É o suprassumo do egoísmo, da submissão, da falta de amor próprio.

No máximo, como explicado, você indica um caminho. Cabe apenas ao “vaquinha” abandonar seu estábulo sagrado e ganhar, assim, o mundo.

Delete todos os “vaquinhas” da sua vida. Seu caminho se tornará mais amplo, mais arejado... e você certamente encontrará um “touro” logo ali adiante.

Acredite. É sempre assim que as coisas funcionam!

30 DIAS, romance de Moa Sipriano - baixe o livro gratuitamente!

o autor artigos livros opinião do leitor imprensa entrevistas fotos de moa sipriano rss perfil oficial de moa sipriano no orkut facebook - moa sipriano siga-me no twitter! contato saiba como apoiar o projeto literário de moa sipriano todas as obras de moa sipriano estão sob uma licença creative commons página inicial o autor artigos livros - literatura gay de qualidade opinião do leitor imprensa entrevistas fotos de moa sipriano saiba como apoiar esse projeto literário